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O pão de cada dia e o sorvete do Bob’s
30 de Julho/Sexta Feira

Três acontecimentos ocorridos nos últimos me fizeram lembrar de algumas coisas.

Sentada na rodoviária de São Paulo, esperando o ônibus que me devolveria à Viçosa, tive vontade de tomar sorvete. Fui ao caixa do Bob’s (Parêntese: Amo muito tudo isso! – o slogan do concorrente é de propósito) pedi um Bob’s Cascão e uma água. Sentei-me e saboreei.

Hoje de manhã, já em Viçosa, depois de dormir apenas 4 horas e pouco, sai às pressas para o trabalho. Quando percebi que a carona que me impediria de pisar no barro estava em risco, entrei no ônibus e fui até a universidade. Tive fome. Parei na lanchonete do DCE e pedi um pingado e um pão de queijo. Saboreei enquanto esperava minha carona.

Pode ser que nada até aqui tenha sido significativo para você. Agradeça. Mas, eu, Tábata, nem sempre tive dinheiro para pegar ônibus, comer ou tomar um sorvete.

Eu tenho refletido ultimamente sobre salário justo. Eu recebo um salário muito aquém do valor de mercado e aceitei a proposta e optei por ter consciência de que eu dependeria de Deus para qualquer coisa que não fosse o básico. Recentemente tive que fazer uma proposta de salário e não poderia partir do meu atual salário como referência, se não a injustiça continuaria. Mandei e-mails para colegas, professores e procurei ofertas de emprego para o mesmo cargo ou similar na região em que vou trabalhar. Os valores mínimos eram três vezes o meu salário atual.

A princípio eu tive a sensação de que meu salário era muito injusto. Depois me lembrei que meu dom cumpriria seu dever de abençoar mesmo que eu trabalhasse de graça e fosse sustentada pelo maná diário. Não sei se você conseguiu entender, mas eu tive uma crise entre trabalho-missionário e trabalho-operário. Entenda-se por trabalho-missionário algo diferente de missão ou vocação missionária e como algo que ~eu não sei explicar muito bem. Eu sei que sou digna do meu salário. Considero-me capaz de fazer o que faço e isso é bom. Nunca separei minha vocação, o fato de eu ser cristã, do fato de eu necessitar de um trabalho e querer viajar nas férias. Mas, de repente, passou pela minha cabeça que seria injusto eu cobrar pelo meu trabalho.

Engraçado, porém assustador.

Lembrar-me que eu nem sempre tive dinheiro para atender minhas necessidades – e isso não é há muito tempo não, mas há três anos – e que muitas vezes eu tive todas as minhas necessidades supridas e tive vontade de comer chocolate ou tomar sorvete e não tive condições… ah, a mémória… ela me traz esperança.

Quando eu subi no ônibus eu agradeci a Deus por ter R$1,5, quando eu comprei um pingado e pão de queijo, agradeci por ter R$1,85. Não é força de expressão, eu agradeci. Eu me lembrei que tudo vem da mão de Deus e que é ele que me sustenta. Lembrei-me que não trabalhei pelos meus móveis, meu computador ou minha moto e que meu salário – alto ou baixo – não me impediu ou possibilitou de ter essas coisas. Lembrei-me que milagrosamente eu consegui dividir meu salário com uma pessoa com mais necessidade que eu e comi chocolate durante todos aqueles meses. Eu tive certeza que Deus vai me sustentar e me abençoar e, se ele quiser, vai fazer sobrar para que eu abençoe outras pessoas.

Minha proposta salarial não chegou ao triplo do meu salário atual, nem ao preço de mercado e nem mesmo ao valor de salários em ONGs (segundo pesquisa recente de uma ONG amiga). Fiz uma conta com base no piso de jornalista. Achei justo. Justo para mim e justo para a organização que vai me contratar.

Sim, é mais que o suficiente para o básico. Talvez eu possa fazer aquela viagem para a Inglaterra ao final de um ano ou mais de trabalho. Mas, não é nesse valor que está minha segurança. Não é na minha capacidade como profissional ou no poder de convencimento. Eu e tudo o que sou é do Senhor e é ele que me sustentará. É ele quem me dá o pão de cada dia e o sorvete do Bob’s.

Agradeço a Deus pela bondade e pela criatividade de me ensinar através de um pingado e pão de queijo. Que ele não deixe de me ensinar quando eu tiver mais ou quando eu tiver menos.

Autora: Tábata Mori

Fonte: http://blig.ig.com.br/


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A Partida
23 de Junho/Quarta Feira

Já foi embora o que me fazia ficar
Dentro de mim há a sombra do que poderia ser
Fora há um mundo que quero desbravar
E junto, um medo que me faz esconder

Fora há um mundo que me dá medo
E dentro, um outro que me faz tremer
Junto, um Deus que, em segredo
Guia-me pelo caminho que vou percorrer

Vou-me embora, sim, vou indo
Amigos, e amores vão ficar
Vou chorando, vou sorrindo
Sabendo que sei para onde voltar

Autora: Tábata Mori

Fonte: http://blig.ig.com.br/ex_pressao

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Vão
18 de Junho/Sexta Feira

Não. Foi o que me disse ao se calar.
Não…
foi o que me transformou em grão… de saudade e de tristeza em vão.

Foi
o que me trouxe a solidão. Não. Mesmo que eu queira um sim só direi não,
mesmo que eu deseje e já não possa mais… dizer que outra vez irei tentar sorrir…
por ter alguém tão perto que me fez sentir…

como um grão de alegria a substituir,
aquele grão de saudade que por tempos persistiu… aquele grão de tristeza que a todas as lágrimas resistiu.

Não…

outra vez não vou sonhar.
Com sua voz ao meu ouvido sussurrando amor.
Nem vou sonhar com suas mãos a me abraçar…

nem vou contar como naquela noite eu… te beijaria. Não.

A minha força foi em vão.
Por que abrir meu coração?
Por que sonhar de novo, então?
Por que chorei de novo…? Por que perdi meu sorriso nessa contramão?

Não…

o medo voltou a fazer parte de mim… Não.

Tarde demais para mudar meu coração.

Vão

Autor: Tábata Mori

Fonte: http://blig.ig.com.br/ex_pressao/


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Banho de Balde
29 de Maio/Sábado

- Cê credita minina?! Cheguei em casa ontem e não tinha água! Cheguei em casa hoje e não tinha água!
- Ah, mas eu acredito dimais… a cidade pequena tá ficano grande! O povo vai subindo os morros e a água nun guenta chegá lá im cima!
- Cê credita?! Onti té durmi sem tomá banho, mais justo hoje qui vô viajá… aágua cabô traveiz! “Ai, ai, ai”, eu pensei, “vou ter que tomar banhdibaldi”.
- Não!?
- Sim. Banhdibaldi. Meio baldi ainda, que peguei um restin di água que inda saía pela tornera… e ainda lavei o cabelo!
- Nossa! Mais aí cê economizô dimais!
- E num é? Otrô dia eu pensei nessa coisa da água acabá, do mundo ficá seco, do mar virá sertão… intão té pensei qui a genti gasta uma tantura de água!
- Ai..
- Ah, mas dimais! Dimais! Quando qui a genti lava rôpa, poim na máquina e ela fica, fica.. e joga água e pega mais e vira e mexe e, às vezes, pega um cadim mais de água… se preciso.
- E num é?!
- I é! Traveiz eu fui tomá banho e disse que eu merecia um banho bem demorado! Então eu fiquei uns minutinhos a mais. Ou então, quando eu quero tomar banho com água qeuntin, mas aí eu coloco o chuveiro no inverno, aí a água fica bem quenti, aí eu tenho que ligar mais o chuveiro, para sair mais água… que fica morninha!
- É… té qui esse povo da universidade que diz que a água vai cabá tá falano a verdade! E já cabô.
- É nada! São esses studanti que vem qui, enche a cidade e gasta tudo a água.
- E num é?!
- É sim. Eu digo… é sim!
- É… num sei o que qui vai sê. Cidade pequena que qué virá grande de um dia prô otro!
- I num é… i é a genti do morro qui paga. Água num chega e banho é dibaldi.

Autora: Tábata Mori


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Tempo Demais
13 de Maio/Quinta Feira

Apagarei todas as pegadas do que foi até aqui.
Sentarei e chorarei!
Sim, chorarei!

Uma vez e mais uma!
Choraria agora, mas agora escrevo.
Choraria agora!

Apagarei mais uma vez.
Mais um engano.
Mais um tez nua no inverno de Viçosa.
Esta também apagarei. E então…
Nunca mais chorarei pelo mesmo motivo.

Cansei!
Nunca mais esperarei.
Nunca mais crerei.
Sim, nunca mais.

Nunca mais ouvirei músicas felizes
e ficarei feliz com elas.
Apenas fingirei.
Talvez eu erre nesse caminho.

Talvez… provável demais!

Talvez eu volte.
Talvez, nunca mais outra vez!

Nunca mais irei ao cinema e sentarei ao seu lado!
Nunca mais talvez!
Nunca mais atenderei o telefone
e ficarei ofegante
e tremerei
e rirei.

Nunca mais!
Nunca mais provável demais!

Cansei de esperar.
Nunca mais esperarei.
Nunca mais confiarei.
Nunca mais talvez não dure tanto assim.

Autora: Tábata Mori


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Diário do Hospital do Câncer I
27 de Abril/Terça Feira

Muriaé, 31 de março de 2010

Estou no hospital com a Nati desde domingo, dia 28. Ontem, de dia, a Soninha ficou com ela e, na noite passada, a Arlete.

Saí para dar uma volta de menos de dois minutos. No vazio e no silêncio do pátio da Fundação e da Faculdade eu quis ouvir a voz de Deus, mas o que eu ouvi foi uma vontade interior de ter para quem ligar – a essa hora. Um nome me veio à cabeça, mas seria engraçado se ele viesse a ser a pessoa para quem eu ligaria nessa situação.

Acho que estou com medo (não sei de quê. Pensei em algumas possibilidades e não cheguei a nenhuma conclusão). Estou pensando por que estou aqui. A resposta para isso deve ser minha humanidade fazendo as contas do quanto vou perder. Os “ais” da Nati já não me geram compaixão, mas sim raiva, irritação. Isso, provavelmente não é só falta de amor, mas também cansaço.

Sei que muito do que ela faz é para eu não dormir e não sei ao certo por que ela quer isso. Em Viçosa, eu achava que era só de sacanagem, maldade, aqui eu acho que ela tem medo de ficar sozinha, mas não sei se é só isso. Acho que ela realmente está sentindo dor, ela já tomou quatro doses de morfina e não resolveu. Tenho dúvidas se brigo por uma ampola de 10 mg (ela tomou quatro de 1 mg) ou se não é dor o que ela está sentindo. Ela quer dormir. Eu não quero dormir, eu realmente queria ficar acordada ao lado dela. Queria não sentir sono para não deixá-la sozinha.

O que é a Nati hein!? O que ela é? Para quê? Por quê?

A dona Nati é a prova de que eu não posso amar como Deus ama. Eu orei muito tempo para que Deus me ensinasse a amar como ele ama. Acho que ele usou a Nati para responder que isso é impossível… impossível para mim.

Esses dias, na Escola Dominical, tentamos descrever o que é o amor. Acho que só é possível tentar. Deus é amor e não é possível explicar Deus; Deus amou o mundo de tal maneira que realizou uma loucura que é incompreensível à mente humana; Deus ama de uma forma que nos constrange.

O Lelê dizia que amor é prático. Amor é ação. Amor é fazer. Mas, hoje, eu discordo um pouco dele. É, mas não é só isso. Eu estou fazendo: estou em Muriaé, acompanhando uma “amiga” em fase “terminal” de câncer, perdendo, no mínimo, quatro dias de trabalho e três reuniões importantíssimas (nas quais estou tentando não pensar), fora o dinheiro desses dias (importante, inclusive, para Nati); doando horas de sono e de lazer; e fiquei irritada com tanto barulho, tanto “ais” que ela já deu durante essa noite. Estou amando? Será que o meu fazer expressa o meu amor? Será que a minha compaixão, pelo telefone, deitada em minha cama quente, em casa, não seria o amor? Será que nenhum dos dois, por si só, é o amor? É amar?

Eu sei amar?

Eu sei que eu não quero morrer sozinha. Antes isso era apenas uma coisa na qual eu pensei quando decidi ficar aqui, será que agora não é a recompensa que eu espero receber?

Sei que eu gostaria de ouvir a voz de alguém dizendo que me ama. Acho que, nesse momento, me ajudaria a amar.

Tábata Mori
31/03/2010 – 03h22
Muriaé – Fundação Cristiano Varella

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O Velho Homem Que Tenta Nos Assustar
14 de Dezembro/Segunda Feira

Coisas Estranhas

Tenho feito coisas que me são estranhas. Ultimamente tenho agido como se fosse velha-Tábata. Tenho me sentido bem assim e isso me assusta. Pedi socorro várias vezes… parece que as pessoas não entendem… parece que as pessoas querem ignorar porque também pedem socorro! Eu não ouço ninguém… não ouço pedidos nem exortações. Cansei de ouvir. Não me basta… nem me basto. Me sinto só. Ultimamente tenho agido como se fosse velha.

As coisas todas não são comuns. Não para todo mundo pois cada um faz um tanto de coisas… outros fazem outro tanto. Eu… tem coisas que eu não faço, coisa que sou livre para fazer mas que não me convêm. Tenho agido como se fosse Tábata, ultimamente.

Talvez eu não seja velha… talvez nem seja a velha-Tábata. Talvez a nova esteja confusa perdida e desejosa… desejosa de muitas coisas me eram comuns antigamente. Coisas boas mas que não convêm. Consegue me entender?

Não. Eu sei que não.

Às vezes eu também não consigo me entender. Às vezes sou como que antigamente… certas vezes sou como ultimamente… última… mente. Mente… minha mente. Às vezes nem última, nem antiga, apenas “minha mente”!

Por que certas coisas me são estranhas? Ah! Por que não as faço ultimamente, mas já as fiz! Agora? Nem sei!

Acho que minha mente está confusa perdida e desejosa.

E agora? Sou velha ou sou nova? Ou sou apenas a “minha mente”?

Tábata Mori, 05/11/2007, 09:44h

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Poesia! A Mais Bela Arte
Tem vezes
03 de Novembro/Terça Feira

tem vezes que eu me acho bonita
tem vezes que não
Tem outras que eu não consigo fazer outra coisa a não ser pensar em você

tem vezes que eu quero sair correndo
… pra perto de você, mas… quase sempre
vou pro outro lado

nas vezes que sou bonita… penso em te namorar
nas outras vezes… penso a mesma coisa!

sempre penso, mas nem sempre em você
mas, tem vezes que você não sai da minha cabeça
tem vezes que é melhor nem pensar

à vezes eu sinto saudades, às vezes é quase sempre
sempre que eu vejo algo legal… penso em te ligar
sempre nem é de vez em quando
sempre é quase todo dia

todo mundo acha que eu devo esquecer
outro todo mundo acha que eu devo deixar rolar
todo, todo mundo mesmo… nem sabe todas as vezes que penso em você

você, tem vezes também
tem vez que faz falta, faz saudade
tem vez que faz raiva,
tem vez que não faz nada e já está bom pra mim
tem vez que eu queria que fosse sempre

mas,
não sei. tem vez que tenho medo
tem vez que penso, posso te machucar
tem vez que só quero estar…
de novo, perto de você
tem vez que é quase sempre

sempre é o tempo… e as vezes
que eu queria estar
perto de você

Autora: Tábata Mori

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Stop! Curta a sua Vida.
Sabe a vida?

Aquela mesmo que passa na frente dos seus olhos. Aquela que muitas vezes não tem a atenção merecida do seu olhar.

Ela passa… é linda. E passa.

Ela pode dar certo… e junto com ela passa tanta felicidade e tanta bondade.
Tanta que são suficientes para nos convencer de que não precisamos ter medo.

Não precisamos adiar… não precisamos esperar…

Nada nos serve de garantia a não ser Deus. Nada nos serve de escudo de proteção. Nem adiar, nem esperar, nem negar, nem fugir… nem correr. Nada nos garante que um caminho é mais certo ou mais seguro.

Eu, Tábata, quero viver. Não tenho vergonha de nenhum sentimento – nem mesmo dos mais bonitos, puros e saborosos.

Não quero ter certezas agora, nem quero fugir de nada por não tê-la. Quero sentir tudo o que me é devido, lícito

e espero que isso não faça ninguém fugir de mim… nem perder amigos que serão sempre só amigos… nem deixar de dar as mãos, rir, caminhar, chorar, teclar, nem nada.

Que meus sentimentos não me privem de nada, pelo contrário, só acrescentem do que é bom, agradável e, por que não, perfeito.

Autora: Tábata Mori

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Aula de Vida com Química
Rola uma química…



Tem vezes que que me sinto uma molécula. Um tanto quanto pequena e insignificante… assim como abundante e necessária. Talvez menos um ou outro.

Meu número é a-tômico, minha massa incorpórea é próxima de um. Nas CNTP sou incolor, inodora, insípida, insolúvel em água – a qual inclusive eu componho. Já na TPM, pareço ser outro elemento, mas só muda minha forma molecular, sou diatômica e, consequentemente, inflamável…

Convivo então em ligação covalente comigo mesma. Sem dar… sem receber…

Apesar de abundante e presente em tantos lugares… até nas estrelas, me sinto só. Sinto que não me enquadro em nenhum grupo. Como se não fosse elementar, como se não tivesse família, como se ocupasse o topo apenas por não haver outro lugar.

E de cima, a vida é solitária. Sem muito calor específico, paradoxalamente, com eletronegatividade ligeiramente positiva. É difícil de explicar, mas me sinto meio neutrôn… embora também não tenha nenhum.

Sinto que não sou muita coisa sozinha e mesmo quando faço pontes, meus elos são fracos e sei qualquer chuva de outono os dissolveria. Fujo. Não aguento mais formações, cliclos e fusões. Quero escapar da gravidade da terra, deixar a atmosfera e permanecer nas galáxias longe dos olhares terrenos.

O estado de tal matéria não é lá dos melhores. Mantenho a aparência… sempre. Torno frágil metais dos mais transitórios até que me dissolvo em Terras-raras e em metais amorfos. Então já não sou eu quem sigo, minha estrutura é outra.

Prefiro ser rara a ser quântica. Prefiro ser filha se bactérias e algas… a ser uma princezinha de plasma vivendo só em auroras polares. Prefiro que meu corpo e alma sejam dicotomicos a diatômicos. Cansei de reformações catalíticas, quero reações catastróficas, aristotélicas e excessivas.

Cansei de ser só uma. Quero ser prata ou ouro. Quero ser índio. Quero ao menos ser nobre. Quero maior potencial de ionização e melhor condutividade térmica. Quero causar impacto ambiental.

Quero deixar de ser hidrogênio.

Tábata Mori, ao vivo

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3 Reais por Uma Caixa de Bis

Peripécias
Tábata Mori, ao vivo


- Você quer comprar uma caixa de bis por 3 reais? Insistia eu no Terminal Rodoviário de BH.
- Não…. Difícil né!?… Não, não… Eram as respostas.

Enquanto eu tentava vender a caixa de bis que havia comprado de manhã, meu amigo Lucas passava de loja em loja tentando comprar algo com cartão (no débito) e convencer o vendedor a dar mais 4 reais de troco.

Uma pessoa sensata se informaria sobre o fato de a única empresa de ônibus que vende passagem para sua cidade não aceitar cartão de crédito ou débito. Mas, nem eu, nem meu amigo éramos pessoas sensatas.

Assim que Ingrid e Diego nos deixaram na rodoviária, por volta de 22h15, fomos ao guichê da Pássaro Verde com o intuito de comprar duas passagens para Viçosa. Além de informar que não aceitava cartão, o vendedor também nos lembrou que os Bancos 24 Horas agora fecham à 22h.

-- Liga pra Ingrid e pergunta se ela tem 30 reais? Pois eu tenho R$64,00.

Infelizmente ela também não tinha, mas informou que havia colocado 10 reais na mala do Lucas, pois não quisemos informar o preço do azeite que compramos para ela. Bom, depois dessa boa notícia, o Lucas encontrou mais 7 reais em notas e algumas moedas. Eu comecei a caçar moedas em todas as partes da minha bolsa e, acredite, de R$64 foi para R$90,75. Mas, precisávamos de R$94,00.

- Moço, quer comprar um caixa de bis por R$3,00? Essa foi minha primeira reação.

Enquanto o Lucas andava de loja em loja, um senhor se aproximou de mim e disse:

- Moça, eu preciso de 4 reais para completar minha passagem. A senhora pode me arrumar? Eu só quero ir para casa. Quase de sopetão, respondi:

- Moço, eu também. Acredite, preciso de 4 reais!!

Então ele foi embora e o senhor que estava quase ao meu lado lhe deu 2 reais. Eu fiquei meio brava porque ele não quis comprar minha caixa de bis… será que eu tinha cara de quem não precisava de 4 reais? Pôxa vida!!

E aí Lucas, alguma coisa?
- Nada. Você acredita!? Ninguém quer me dar 4 reais! E é no débito ainda, mas também algumas lojas não aceitam cartão. Tábata, é melhor você ir embora, eu fico. Eu ainda posso repor outro dia de trabalho se precis…
- Não Lucas. Tá louco. São 4 reais, não é possível que a gente não via conseguir. Você tentou na farmácia? Eles devem aceitar cartão… compra um dramim pra mim.

Ouvi uma voz de criança. Olhei para o banco atrás do meu e vi um menino com sua mãe, que conversava com o homem que havia sentado ao meu lado. Então apelei.

- A senhora não quer comprar uma caixa de bis por 3 reais? É que íamos comprar a passagem no cartão e quando chegamos é que a gente viu que não aceitava e faltam 3 reais.
- Difícil né! Mas não, obrigada.
- Difícil mesmo! Pensei eu.

A farmácia também não pôde nos ajudar e o meu amigo Lucas partiu para outra empreitada. Olhando para cima eu vi uma luz acesa dentro da loja onde estava escrito “Banco 24 horas”. Liguei para o Lucas:

- Luquinhas… será que podemos ainda tentar o Banco 24 Hor…
- Não, não precisa mais. Acho que vou conseguir comprar a passagem de um senhor e ele vai me dar o dinheiro.



- Consegui. Agora tenho dinheiro quase que para comprar as passagens para nós dois. O homem ia para São Paulo… são R$86.
- Ufa! Dissemos juntos.

Às 23h20 voltamos ao guichê da Pássaro Verde para comprar nossas passagens. Sentamos em outro lugar e já muito aliviados:

- Tábata, abre esse bis. Vamos comer esse bis merecido!
- Já que ninguém quis comprar ele, a gente tem que comer mesmo!!

- Lucas, você acredita que um homem me pediu 4 reais para completar o dinheiro da passagem? Eu disse pra ele que eu também precisava de 4 reais, mas não sei se ele acreditou.
- Onde ele está? Agora a gente pode ajudar ele!
- Acho que ele já conseguiu o dinheiro.

- Eu vou até no banheiro agora… Você também quer ir, eu pago, agora eu tenho dinheiro!

Às 00 horas entramos no ônibus que nos levaria para casa. Mesmo sem dramim, eu capotei. Acordei ao chegar na rodoviária de Viçosa e fiquei muito feliz por ter dinheiro para pagar o táxi também.

Obrigada Deus pela tua provisão. Pela tua presença, pelo teu bom humor e… porque não, pela caixinha de bis que foi tão bem saboreada como um troféu!

Tábata Mori

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As azeitonas e nossas escolhas


As azeitonas
Tábata Mori


Um ex-namorado meu -- que por acaso não gostava de azeitonas -- me contou a teoria das azeitonas. Essa teoria defende que pessoas que gostam de azeitonas encontram-se com pessoas que não gostam. Ou, mais ainda, nos faz acreditar que as pessoas no mundo são divididas em duas categorias: as que gostam de azeitonas e as que não gostam. E, em algum momento, essas pessoas se encontram e são felizes.

Sou do tipo que gosta -- e muito -- de azeitonas e descobri que sempre procurei alguém que não gostasse. Recentemente, estive pensando no porquê de uma pessoa tão legal como eu ainda estar sozinha. Descobri então que a culpa é das azeitonas!

Em algum período (longo) me lembro de ter pedido a Deus um cara que não gostasse de azeitonas e, também, que atendesse a “alguns” outros pré-requisitos. Certo dia, ouvi uma exposição “viajante” da carta de Paulo a Timóteo, feita pelo presidente da ABUB, Miranda, em que ele relacionou amor e serviço.

Miranda nos perguntou repetidas vezes o que buscávamos em nosso cônjuge. Que tipo de esposa ou esposo estávamos procurando. Embora não quisesse confessar, em minha mente eu respondia: “Um que não goste de azeitonas e atenda àquelas poucas exigências do meu ego”. Ele perguntou mais uma vez: Vocês procuram alguém para servi-los ou alguém a quem vocês possam amar? Alguém que atenda sua lista de exigências ou alguém a quem servir com seu amor?

Aquilo me incomodou. Logo eu que digo amar com facilidade e ser cheia de amor para dar, carregava comigo um desejo utilitarista. Queria alguém que contemplasse meu desejo, que me servisse com suas virtudes. Negro, alto, que não seja magro.

Inteligente, que converse sobre teatro, música e livros. Músico! Essas e muitas outras azeitonas me separavam de muitas pessoas interessantes que conheci.

Porém, ao contrário do que possa parecer, as palavras do Miranda não vieram condenar ou pesar e sim, aliviar, tirar de mim um peso que não sabia que carregava. As palavras tinham sabor de descanso. Meu desejo deveria ser alguém para amar. Para dar todo o amor que tinha e que ainda não havia completamente explorado e experimentado.


“Senhor, quero alguém para amar”. Que mudança de foco! Desde então, tento me desfazer da pequena lista de pré-requisitos. Procuro um loiro ou negro, poeta ou engenheiro, músico ou não. Procuro alguém a quem eu possa servir com o meu amor. Alguém para, simplesmente, amar. E, caso a teoria esteja certa, ele não vai gostar de azeitonas.


• Tábata Mori, 29 anos, jornalista e poetisa, é assistente de comunicação da Rede Mãos Dadas. http://blig.ig.com.br/ex_pressao
*Fonte:Site da Revista Ultimato Related Posts with Thumbnails