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Quem matou Tutancâmon?
Um dos maiores mistérios da arqueologia pode, enfim, estar chegando ao fim: o faraó Tutancâmon, que viveu no século 14 a.C., foi assassinado com uma pancada na cabeça. É o que afirma Mike King, detetive americano especializado em análise criminal. Ele teve acesso a áreas restritas do túmulo do faraó, falou com arqueólogos e examinou as raras radiografias dos restos mortais feitas, em 1969, pelo médico inglês R. G. Harrison. Depois de tudo isso ele está certo de que o rei foi assassinado. “A análise da tumba mostrou que o lugar era pequeno demais e que havia pinturas incompletas”, diz King. Ele acha que esse é um indício de que alguém tinha pressa para enterrar Tutancâmon. Talvez para eliminar provas.

Nos raios-X, eles descobriram uma lasca de osso solta no crânio e uma marca que indica a formação de um coágulo, sinais de uma pancada na cabeça. Descoberta em 1922, pelo britânico Howard Carter, a tumba deTutancâmon foi um dos maiores achados da arqueologia. Muito bem conservada, nenhuma múmia foi tão remexida e estudada. A vida de Tut foi virada do avesso e sua morte aos 18 anos sempre intrigou cientistas e curiosos. Faltava, agora, descobrir o assassino.

Mas a lista não deveria ser grande. “Poucas pessoas podiam chegar tão próximos do rei, que era considerado um deus. Os suspeitos, portanto, deveriam ser pessoas próximas a ele”, diz King. A rainha Ankhesenamun, irmã e esposa de Tut, Ay, seu primeiro-ministro e tutor, Maya, o ministro das finanças e Horemheb, chefe do exército, compunham a lista.

Em Amarna, onde Tut nasceu, o detetive encontrou desenhos reveladores: os assassinos de seu pai, Akhenaton, aparecem sendo torturados. Entre eles está Ay. “Havíamos encontrado o assassino”, diz Mike King. “Ay era ambicioso e manipulador. Ele assumiria o comando do império e herdaria muito dinheiro com a morte do rei. A vingança foi a gota d’água”, afirma.

Mas o mistério ainda pode revelar uma reviravolta no epílogo. “Há alguns pontos que ainda precisam ser esclarecidos”, diz King. “É possível que Ay tenha tido um cúmplice. Ele espera uma autorização do governo egípcio para realizar exames mais detalhados, como tomografias na múmia de Tutancâmon. O jovem rei ainda está longe de seu descanso final.

Manuela Aquino | 01/07/2003 00h00 em Revista Aventuras na História

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Que Fim Levou? Os óculos de Lampião
22 de Março/Terça Feira

Cangaceiro os usava para esconder a cegueira em um dos olhos
por Betina Moura

Nos primeiros dias de agosto de 1925, o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1898-1938), fazia uma de suas muitas incursões pelo sertão pernambucano. Os cangaceiros foram surpreendidos por agentes do governo e começou um tiroteio. Um dos membros, Livino – o irmão mais novo de Lampião –, foi atingido. O líder reagiu. No confronto, um soldado atirou em um cacto e a bala da escopeta fez com que um espinho fosse parar no olho direito de Lampião.

Livino acabou morrendo. Lampião, levado à cidade de Triunfo, perto do campo de batalha, foi atendido por um médico que retirou o espinho, mas não conseguiu salvar o olho do cangaceiro. Resultado: ele ficou cego de um olho. “O bom humor o impedia de esconder o problema, e ele brincava dizendo que não adiantava nada ter dois olhos, pois é preciso fechar um deles para atirar”, diz o pesquisador Antonio Amaury Correa de Araújo, autor de dez livros sobre a história do cangaço. O incidente transformou o cangaceiro em canhoto – ao menos na hora de atirar –, mas não atrapalhou sua fama de justiceiro. E o levou a usar óculos até o fim da vida. “Os óculos, que aparecem em quase todas as fotos, escondiam a deficiência de quem não a conhecia e protegiam os olhos do sol escaldante do sertão”, diz Antonio. Há notícia de pelo menos três óculos diferentes – sobre um deles há a história, nunca confirmada, de que os aros eram de ouro.

Dois dos óculos de Lampião, simples, redondos, de aro comum, foram deixados por ele nas casas de pessoas que o abrigaram durante o chamado “ciclo de Pernambuco”, antes de os cangaceiros cruzarem o rio São Francisco em direção à Bahia, em agosto de 1928. Há cerca de oito anos foram doados por essas pessoas à Casa de Cultura de Serra Talhada, em Pernambuco, onde se encontram até hoje.

Sobre os óculos que usava quando morreu, tudo indica que foram entregues para a polícia de Alagoas, que expôs as cabeças dos cangaceiros mortos após dizimar o grupo de Lampião numa emboscada na gruta do Angico, em Poço Redondo, Sergipe. No ataque-supresa, 11 cangaceiros foram mortos – entre eles, Lampião e sua mulher, Maria Bonita. A própria polícia promoveu a rapinagem do tesouro do bando. Ficaram com eles jóias, dinheiro, perfumes e tudo o mais que tivesse valor – inclusive os óculos.

por Betina Moura

Fonte: http://historia.abril.com.br

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A moda de ir à praia começou como recomendação médica
12 de Março/Sábado

por Álvaro Silva

Até 1810 ninguém tomava banho de mar no Brasil. Mulher nenhuma se esticava na areia de biquíni fio dental até torrar como um camarão. Não tinha futebol ainda e muito menos futebol de areia. Não tinha surf, nem rodinhas de banhistas descansando sob guarda-sóis. Ninguém considerava costumeiro nem civilizado lagartear na areia até 1810. Mas, naquele ano, o rei dom João VI faria um mergulho na Praia do Caju, hoje um lugar degradado na zona portuária do Rio de Janeiro. O monarca estava com a perna infeccionada por causa de um carrapato e seguia orientações médicas. Sem querer, ele inaugurou o costume que hoje lota as praias de banhistas e vendedores de queijo coalho.

Na França e na Grã-Bretanha, distintas senhoras já tomavam seus banhos para curar doenças físicas e até psíquicas. As teorias sobre o benefício do banho de mar eram a última palavra na medicina da Europa. E foi lá que os desesperados médicos de dom João foram buscar a receita para curar o rei que vivia no Brasil havia dois anos.

A idéia de que a água – sobretudo a água salgada do Canal da Mancha – era um santo remédio veio de uma teoria do médico e religioso inglês John Floyer nos primeiros anos do século 18. Além de criticar a igreja por modernizar a cerimônia do batismo (que virara um mero espirro de gotas na testa), o doutor Floyer acreditava que o mar tinha poderes milagrosos até para paralíticos. Sua obra inaugural, a História do Banho Frio, foi publicada em dois volumes, em 1701 e 1702. Mas a corrida às praias na Europa começou mesmo meio século mais tarde, em 1749, quando outro inglês, o doutor Richard Frewin, descreveu a primeira cura por banho de mar.

Sessenta anos depois, havia no Velho Continente uma enxurrada de publicações de métodos para o tratamento marinho. Os médicos de dom João decidiram tentar. E a receita deu certo: o monarca curou-se. Com o sucesso, os banhos atraíram a corte portuguesa alojada no país. Logo surgiram as primeiras casas de banhos terapêuticos, que ofereciam aos banhistas piscinas com água do mar e locais para se trocar e guardar as roupas. Em um anúncio de 2 de dezembro de 1811, do jornal A Gazeta do Rio de Janeiro, uma casa de banho oferecia seus serviços por 320 réis, o dobro do preço de um ingresso do Circo Olímpico, o principal da cidade.

Do barril ao topless
Pegar praia dava cadeia até a década de 20

Barril inaugural

O traje de banho usado em 1810 por dom João VI não era nada convencional nem mesmo para a época. O rei de Portugal tinha medo dos caranguejos e só aceitou entrar na água dentro de um barril. O recipiente que lhe serviu de roupa tinha o fundo tapado. Na lateral havia um pequeno buraco, por onde a água entrava. Conforme as exigências do monarca, apenas suas pernas podiam ser molhadas.

É Proibido Ver

A preocupação do governo e dos banhistas com a falta de pudor nas praias era enorme. Inicialmente, as senhoras banhavam-se de madrugada, para não serem vistas. Contra os moleques que as importunavam, as casas de banho colocavam em suas paredes avisos como este: “É expressamente proibido fazer furos nestas cabines à verruma ou pena, os encontrados nessa prática devendo ser entregues à ação da polícia”.

Hora do banho

Em 1917, o prefeito carioca Amaro de Brito regulamentou os horários de praia. De 1º de abril a 30 de novembro, podia-se entrar na água das 6h às 9h e das 16h às 19h. No verão, das 5h às 8h e das 17h às 19h. Quem fosse pego em outros horários era punido com multa ou cinco dias de cadeia.

Olha o maiô aí

A liberdade de freqüentar a praia sem a perseguição da polícia começou com os esportes aquáticos. Em 1880, aconteceram as primeiras regatas, por influência inglesa. A primeira mulher a vestir um maiô de peça inteira, colado ao corpo, foi a campeã olímpica Annette Kellerman, na Olimpíada de Estocolmo, em 1912.

Jânio e o biquíni

Em 1946, o francês Louis Reard chocou o mundo ao mostrar dançarinas de cabaré com o umbigo à mostra, vestidas apenas com a sua invenção, o biquíni. Quinze anos depois, a polêmica chegou ao Brasil: o biquíni foi proibido nas praias nacionais pelo pacote moralista do presidente Jânio Quadros, que vetou também corridas de cavalo, rinhas de galo e o lança-perfume. Mas a moda já tinha pego por aqui fazia tempo.

Topless na cadeia
Em 1964, a novidade foi o monoquíni (ou “topless”), que foi criticado pela Igreja mas apoiado por Roberto Carlos em músicas como “Eu sou fã do monoquíni”. Apesar do lobby do rei, o traje ainda é polêmica. Em 2000, depois de tirar a parte de cima do biquíni na praia do Recreio, a carioca Rosimeri Costa foi presa por 20 policiais.

Por: Álvaro Silva
Fonte: http://historia.abril.com.br

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A origem do semáforo: Sinal de trânsito
28 de Fevereiro/Segunda Feira

Atire a primeira pedra no sinal de trânsito – ou no farol, ou semáforo, ou sinaleira, dependendo de que parte do país você está – quem nunca olhou para aquela luz vermelha acesa no cruzamento e, com raiva por causa da pressa, ficou imaginando quem foi o responsável por atrasar sua vida. Só que o semáforo passou a ser mais do que necessário para orientar o caos que se tornava o trânsito nas cidades européias e americanas na virada do século 20.

Com o crescimento populacional e a modernização de vias no início do século passado, as cidades começaram a fervilhar. As ruas passaram a ser indicadores de progresso. Por isso, algumas chegavam a ter até 100 metros de largura. Muitas pessoas já podiam ter um carro motorizado, principalmente depois do surgimento do modelo Ford T. Só nos Estados Unidos, a frota de veículos saltou de 8 mil, em 1900, para 2,5 milhões, em 1908. Nas ruas americanas e de cidades como Londres, na Inglaterra, carros se misturavam a carruagens, bicicletas e, claro, pedestres, que passaram a sofrer cada vez mais. Não foi à toa que logo começaram a surgir várias tentativas de controlar o trânsito.

O primeiro semáforo de que se tem notícia data de 1868. Foi instalado em Londres com luzes a gás para ser visto à noite. Ele tinha dois braços, movimentados por policiais: quando estavam na horizontal, indicavam que os veículos parassem; em 45 graus, eles deveriam seguir. Durou menos de um mês porque explodiu, ferindo o policial que o manejava.

Pouco depois, em Berlim, na Alemanha, foram construídas torres no meio de cruzamentos com cabines onde policiais ficavam sentados trocando as luzes o dia todo. Esse tipo de torre, que sofreu variações ao longo das décadas, foi bastante usada em Nova York a partir de 1916. Desde 1912, sucessivas invenções ganharam notoriedade nos Estados Unidos, onde foram criados os princípios usados até hoje. O sinal de três cores e próprio para o cruzamento de vias foi inventado e instalado pelo policial William Potts, em 1920, em Detroit.

por Fred Linardi

Fonte:http://historia.abril.com.br

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A origem do bolo de aniversário
21 de Fevereiro/Segunda Feira

Celebrar uma data importante com direito a guloseimas tem sua provável origem nas festas de culto aos deuses da Antiguidade. Agradeça à deusa Ártemis, celebrada pelos gregos como a matrona da fertilidade, pelo aparecimento do bolo de aniversário. Ele é provavelmente a evolução de um preparado de mel e pão, no formato de uma lua, que fiéis levavam ao famoso templo em homenagem a ela em Éfeso, antiga colônia grega na atual Turquia.

Há especialistas que defendem outra teoria. Segundo ela, a tradição surgiu na Alemanha medieval, onde se costumava preparar uma massa de pão doce no formato do menino Jesus no Natal. Depois essa guloseima seria adaptada para a comemoração do aniversário de crianças.

Já o uso de velas também teria sido herdado do culto aos deuses antigos, que tinham a missão de levar, por meio da fumaça, os desejos e as preces dos fiéis até o céu, para que eles fossem atendidos.

Mas e as festas de aniversário? Até hoje, não se sabe a data exata de quando os nascimentos começaram a ser celebrados. Ainda nos dias atuais, a comemoração é um costume ocidental nem sempre seguido por outros povos. No Vietnã, por exemplo, os aniversários não são comemorados individualmente no dia do nascimento – e sim coletivamente, no ano-novo vietnamita, que segue o calendário lunar e acontece, em geral, entre os nossos 21 de janeiro e 9 de fevereiro.

Embora não saibam exatamente quando a tradição surgiu no Ocidente, os historiadores sabem que a festa já era conhecida na Antiguidade. “Os romanos não apenas comemoravam o dia do nascimento como tinham um nome para a festa: dies sollemnis natalis”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas. “Há, por exemplo, um registro do século 2 em que uma cidadã chamada Cláudia Severa convida sua amiga Sulpícia Lepidina para a comemoração”, diz.

Outra tese que reforça a idéia de que foram os romanos os difusores dessa tradição é a existência de túmulos que registram com precisão o número de anos, meses e dias no sarcófago – o que indica que eles sabiam o dia exato do nascimento do sujeito. “Eles também comemoravam outros aniversários, como o da fundação de Roma, em 21 de abril”, diz Funari.

por Rodrigo Cavalcante

Fonte: http://historia.abril.com.br

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Como fazíamos sem cama?
10 de Dezembro/Sexta Feira

No passado, o jeito era dormir sobre peles de animais ou montes de palha
por Maurício Barros de Castro


O chão era o limite enquanto o homem ainda não havia descoberto uma das suas mais importantes invenções: a cama. Antes de nossos ancestrais desenvolverem a capacidade de construir artefatos, eles deitavan no solo úmido e ficavam sujeitos a inundações e ataques de bichos rastejantes. Na melhor das hipóteses, dormiam sobre peles de animais ou montes de palha. Embora conseguissem maior conforto, permanecia a incômoda proximidade da terra. Era preciso se colocar acima dessas adversidades.

No antigo Egito, as pessoas já conseguiam dormir melhor. Um dos tesouros encontrados na tumba de Tutancâmon é uma cama de madeira dobrável. Acredita-se que o modelo era utilizado em viagens e campanhas de guerra. Sua engenhosidade não se perdeu com o tempo e, ainda hoje, o objeto é facilmente reduzido a um terço de seu tamanho. Mas poucas pessoas tinham acesso a tamanho privilégio. Ao contrário do resto da população, somente os faraós e nobres usavam camas para dormir ou mesas e cadeiras para comer.

Nos séculos seguintes, a cama continuou sendo utilizada não apenas para descanso, mas também como local de refeições. Uma aplicação que teve seu ápice com os romanos, acostumados a celebrar banquetes deitados em divãs semicirculares ou em forma de ferradura, repletos de almofadas.

Com o avanço da Idade Média e a compartimentação dos ambientes da casa, a cama foi recolhida ao quarto de dormir. Para se proteger do frio, os europeus passaram a utilizar um modelo herdado dos persas: o dossel, um leito cercado por colunas de madeira e cortinas de tecido.

Outras sociedades encontraram formas diferentes de repousar. Os índios preferem as redes e os japoneses gostam de futons (colchões espessos e dobráveis) sobre tatames. Ao longo do tempo, o móvel permaneceu com inúmeros usos, todos voltados para o descanso e o prazer. Não é à toa que, em vários idiomas, "ir para a cama" também pode ser sinônimo de fazer amor.

Fonte: http://historia.abril.com.br

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Crianças na Guerra
20 de Outubro/Quarta Feira

Infância: anjos armados
Em 25 países, crianças lutam em guerras
por Eduardo Campos Lima

Na batalha de Leuctra, no ano 371 a.C., crianças de Esparta pegaram em armas. Em 1415, em Agincourt, os franceses massacraram os escudeiros britânicos, que tinham menos de 15 anos de idade. Existem vários exemplos como esses de participação de jovens em conflitos. Mas nunca eles foram usados em larga escala e em tantos lugares como agora. Neste momento, 25 países reúnem de 200 mil a 300 mil soldados mirins. "A presença de crianças é o novo comportamento padrão em guerras", afirma o especialista americano Peter W. Singer, autor de Children at War ("Crianças em guerra", sem tradução no Brasil).

A idade média dos jovens militares é 12 anos. A maior parte deles atua em grupos de guerrilha, sem ligação com o Estado. Mas, em vários países, menores são alistados pelo governo. Entre 2003 e 2005, por exemplo, 15 britânicos de 17 anos atuaram no Iraque. "As crianças são fáceis de manipular e, em muitos casos, lutam tão bem quanto os adultos", diz Jo Becker, diretora de Defesa dos Direitos das Crianças da organização não-governamental Human Rights Watch.
Os menores são espiões, guardas e soldados armados da linha de frente. Já as meninas são usadas como escravas sexuais. De acordo com Jo Becker, boa parte das crianças é motivada pela pobreza. "Muitas veem o recrutamento como forma de conseguir comida."

Recrutas mirins
Os locais onde a prática é comum e quatro casos graves

México

Crianças lutam em grupos guerrilheiros no mundo todo, em especial na Colômbia e no Sri Lanka. Os mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional também sustentam um batalhão juvenil.

Sudão

Os soldados infantis lutam na região de Darfur, onde uma guerra, que já dura seis anos, deixou estimadas 300 mil mortes. Os menores de idade atuam como espiões e pegam em armas nas linhas de frente.

Uganda

O governo tem o hábito de capturar os jovens que atuam em grupos armados independentes e transformá-los em espiões e mensageiros do Exército local.

Mianmar

Pelo menos 14 países recrutam pessoas com menos de 18 anos em grupos militares. O caso mais sério é o de Mianmar, onde as crianças são forçadas a passar pelo treinamento do Exército.


Que você possa estar orando por essas crianças e a libertação deste tipo de vida.

Estratégia antiga
Jovens participam de batalhas há 2300 anos


Esparta, 300 a.C.

Após os 6 anos, os garotos participavam de pelotões juvenis. Lá, recebiam uma única peça de roupa e dormiam sobre juncos.

Inglaterra, Século 6

Meninos de 12 anos eram treinados para a guerra. Há relatos de que, aos 15, São Gustavo de Croyland (673-714) já estava engajado em ações militares.

Império Otomano, Século 14

Uma parcela dos garotos cristãos das províncias era recrutada. Os meninos se convertiam ao Islã e passavam a praticar exercícios bélicos.

Brasil, Século 18

Órfãos criados em instituições públicas eram recrutados pelas forças armadas desde o período colonial. Em casos de indisciplina, levavam chibatadas.

Estados Unidos, 1864

Na Virgínia, o general confederado John Breckenridge (1821-1875) recorreu a 247 cadetes da região, sendo que 25% tinham menos de 16 anos.

Alemanha, 1922

Garotos da Juventude Hitlerista eram treinados desde os 14 anos. Em 1943, foi criada uma unidade especial da polícia secreta, a "divisão leite de bebê".


Fonte: http://historia.abril.com.br

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Darwin errou?
Autores americanos apontam suspostas falhas na teoria da evolução
por Carlos Nasser
28 de Julho/Quarta Feira

Segundo as melhores teorias atuais sobre a evolução humana, nossos primeiros ancestrais pré-históricos surgiram na África há cerca de 6 milhões de anos. Foram precisos mais de 5 milhões de anos de adaptações para se chegar ao Homo sapiens, cujo aparecimento teria ocorrido entre 100 mil e 200 mil anos atrás. Mas há peças que parecem não se encaixar nesse intrincado quebra-cabeça. Para os americanos Michael Cremo e Richard Thompson, autores do livro A História Secreta da Raça Humana, a conclusão é bastante diferente e radical: a teoria da evolução proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin no século 19 está errada e a história dos seres humanos precisa ser rescrita do zero e partindo da premissa de que existimos há muito mais tempo do que imaginávamos.

Várias pistas diferentes são usadas para tentar recompor a história dos animais e plantas que existem ou existiram em nosso planeta. Os fósseis – restos de ossos preservados no meio de sedimentos que, com o passar de milhares de anos, se transformaram em rochas – são algumas das mais importantes. No caso dos seres humanos, é possível encontrar também artefatos, ferramentas e marcas de ações. Acredita-se que o nosso ancestral mais antigo tenha surgido há cerca de 6 milhões de anos. O Homo sapiens, há apenas 100 mil ou 200 mil anos. O que pensar então de um esqueleto e outros restos de ossos com anatomia praticamente igual à de seres humanos modernos encontrados num sítio do período do Plioceno, que pode ter de 1,5 milhão a 5 milhões de anos? Os ossos foram descobertos numa vala na cidade italiana de Castenedolo, ao longo da década de 1860. “Esse é um exemplo bem documentado de restos humanos totalmente anômalos, numa época em que os cientistas supõem que eles seriam impossíveis.”

Outra evidência apontada por ele: em 1849, operários de uma mina de ouro na Califórnia encontraram algumas ferramentas mais avançadas, como pontas de lança e pedras de amolar, em leitos de cascalho localizados dezenas de metros abaixo das rochas. A idade dos cascalhos variava de 9 milhões a 55 milhões de anos. Nessa época, os mamíferos estavam começando a se diferenciar e formar distintas espécies, estando muito longe do surgimento de uma criatura que fosse capaz de fabricar tais ferramentas.

Mas há outros casos mais extremos, como os citados no início do texto. Em 1844, um cordão de ouro foi encontrado a 2,40 metros para dentro de uma rocha, que estava sendo removida por operários em Dorchester, Inglaterra. Em 1985, a pedra teria sido datada como sendo do período Carbonífero Primitivo – entre 320 milhões e 360 milhões de anos de idade. Se para a maioria parece exagero nem sequer considerar que havia alguma criatura capaz de fazer um cordão de ouro nessa época remota, para Cremo e Thompson isso é apenas mais uma evidência subestimada. Quer saber até onde eles chegam? Pois bem. Na África, na década de 1980, foi encontrada uma esfera de metal, perfeitamente redonda, com três listras paralelas sulcadas em baixo-relevo. Ela estava num depósito mineral que teria cerca de 2,8 bilhões de anos. “Na ausência de uma explicação natural, a evidência é misteriosa. Isso deixa aberta a possibilidade de que tenha sido feita por um ser inteligente”, afirmam os autores.

Esses são apenas alguns exemplos descritos no livro de Cremo e Thompson. No total, são 139, com variados níveis de detalhamento. Todos eles conhecidos e estudados pelos cientistas. Mas as conclusões não foram muito animadoras: simplesmente todas as supostas evidências foram refutadas. Os ossos de Castenedolo podem ter sido apenas sepultados num extrato mais antigo. Um teste de datação radioativa utilizando o carbono 14, realizado mais recentemente, deu aos ossos no máximo 958 anos.

Crença versus evidência

Poucos assuntos na história e na ciência são tão polêmicos quanto as origens da nossa espécie. Desde que Darwin contrariou a idéia da criação divina e enquadrou o homem dentro da sua teoria da evolução, a discussão ficou polarizada entre criacionistas de um lado e cientistas de outro – crença contra evidência. Mas para Cremo e Thompson, as diferenças entre eles não são tão gritantes como se poderia supor. Para os autores, os cientistas teriam se apegado tão firmemente à teoria darwiniana que já não consideram nenhuma outra possibilidade, fazendo vista grossa para possíveis evidências que não estejam de acordo com sua “crença”.

Ou seja: segundo os autores, a ciência só não encontra provas de que os seres humanos são muito mais antigos porque os cientistas não querem. “A comunidade científica suprime dados que possam acarretar desconfortos para a imagem da evolução humana que prevalece hoje em dia”, afirmam Cremo e Thompson. “Ficamos conhecendo também a tristeza e a amargura pessoais experimentadas por cientistas que têm o infortúnio de fazer descobertas anômalas.”

Para Cremo e Thompson, não há muita alternativa. Se um pesquisador encontrar algum osso ou outro indício que vá contra a linha evolutiva, ou ele finge que não encontrou nada ou se prepara para todo tipo de represália velada: descrédito dos colegas, ameaças de demissão ou de corte de verbas e exclusão dos periódicos científicos. A teoria da evolução teria se tornado uma questão de fé, ou a ciência não teria capacidade de lidar com novos fatos que contradizem teorias que atualmente são aceitas como verdadeiras. Isso sem falar que, se os casos apresentados no livro forem todos verdadeiros, não é somente a data do surgimento do Homo sapiens que estaria errada. Significaria também que homens modernos e primitivos teriam coexistido, o que quer dizer que não houve evolução de um para outro. Seriam criaturas totalmente distintas, que inclusive estariam coexistindo até hoje. Segundo o livro, basta prestar atenção nos casos de pés-grandes e homens das neves para ver que os humanóides primitivos ainda estão vivos.


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Como surgiram os nomes dos meses do ano?
Nosso calendário é regido por deuses, imperadores e números romanos
por Álvaro Oppermann
22 de Julho/Quinta Feira

Antes de Roma ser fundada, as colinas de Alba eram ocupadas por tribos latinas, que dividiam o ano em períodos nomeados de acordo com seus deuses. Os romanos adaptaram essa estrutura. De acordo com alguns pensadores, como Plutarco (45-125), no princípio dessa civilização o ano tinha dez meses e começava por Martius (atual março). Os outros dois teriam sido acrescentados por Numa Pompílio, o segundo rei de Roma, que governou por volta de 700 a.C.

Os romanos não davam nome apenas para os meses, mas também para alguns dias especiais. O primeiro de cada mês se chamava Calendae e significava "dia de pagar as contas" - daí a origem da palavra calendário, "livro de contas". Idus marcava o meio do mês, e Nonae correspondia ao nono dia antes de Idus. E essa era apenas uma das diversas confusões da folhinha romana.

Até Júlio César (100 a.C.-46 a.C.) reformar o calendário local, os meses eram lunares (sincronizados com o movimento da lua, como hoje acontece em países muçulmanos), mas as festas em homenagem aos deuses permaneciam designadas pelas estações. O descompasso, de dez dias por ano, fazia com que, em todos os triênios, um décimo terceiro mês, o Intercalaris, tivesse que ser enxertado.

Com a ajuda de matemáticos do Egito emprestados por Cleópatra, Júlio César acabou com a bagunça ao estabelecer o seguinte calendário solar: Januarius, Februarius, Martius, Aprilis, Maius, Junius, Quinctilis, Sextilis, September, October, November e December. Quase igual ao nosso, com as diferenças de que Quinctilis e Sextilis deram origem ao meses de julho e agosto. Quando e como isso aconteceu, você descobre lendo o quadro abaixo.

Folhinha milenar
Divisão do ano é basicamente a mesma há 20 séculos

Janeiro

Januarius era uma homenagem ao deus Jano, o senhor dos solstícios, encarregado de iniciar o inverno e o verão. Seu nome vem daí: ianitor quer dizer porteiro, aquele que comanda as portas dos ciclos de tempo.

Fevereiro

O nome se referia a um rito de purificação, que em latim se chamava februa. Logo, Februarius era o mês de realizar essa cerimônia. Nesse período, os romanos faziam oferendas e sacrifícios de animais aos deuses do panteão, para que a primavera vindoura trouxesse bonança.

Por que 28 dias?

Até 27 a.C., fevereiro tinha 29 dias. Quando o Senado criou o mês de agosto para homenagear Augusto, surgiu um problema: julho, o mês de Júlio César, tinha 31 dias, e o do imperador, só 30. Então o Senado tirou mais um dia de fevereiro.

Março

Dedicado a Marte, o deus da guerra. A homenagem, porém, tinha outra motivação, bem menos beligerante. Como Marte também regia a geração da vida, Martius era o mês da semeadura nos campos.

Abril

Pode ter surgido para celebrar a deusa do amor, Vênus. Na primeiro dia do mês, as mulheres dançavam com coroas de flores. Outra hipótese é a de que Aprilis tenha se originado de aperio, "abrir" em latim. Seria a época do desabrochar da primavera.

Maio

Homenagem a Maia, uma das deusas da primavera. Seu filho era o deus Mercúrio, pai da medicina e das ciências ocultas. Por esse motivo, segundo escreveu Ovídio na obra Fastos, Maius era chamado de "o mês do conhecimento".

Junho

Faz alusão a Juno, a esposa de Júpiter. Se havia uma entidade poderosa no panteão romano, era ela, a guardiã do casamento e do bem-estar de todas as mulheres.

Julho

Chamava-se Quinctilis e era simplesmente o nome do quinto mês do antigo calendário romano. Até que, em 44 a.C. o Senado romano mudou o nome para Julius, em homenagem a Júlio César.

Agosto

Antes era Sextilis, "o sexto mês". De acordo com o historiador Suetônio, o nome Augustus foi adotado em 27 a.C., em homenagem ao primeiro imperador romano, César Augusto (63 a.C.-14 d.C.).

Setembro a dezembro

Para os últimos quatro meses do ano, a explicação é simples: setembro vem de Septem, que em latim significa "sete". Era, portanto, o sétimo mês do calendário antigo. A mesma lógica se repete até o fim do ano. Outubro veio de October (oitavo mês, de octo), novembro de November (nono mês, de novem, e data do Ludi Plebeii, um festival em homenagem a Júpiter) e dezembro de December (décimo mês, de decem).

E o ano bissexto?
Dia extra a cada quatro anos corrige distorção

Ao adotar o calendário solar, em 44 a.C., Júlio César criou o ano de 365 dias e um quarto. Por causa dessa diferença, a cada quatro anos era necessário atualizar as horas acumuladas com um dia extra. O problema do calendário juliano é que, na verdade, um ano tem 11 minutos e 14 segundos a menos do que se estimava. Por isso, em 1582, o papa Gregório XIII (1502-1585) anulou dez dias do calendário e determinou que, dos anos terminados em 00, só seriam bissextos os divisíveis por 400. E o nome "bissexto" tem uma explicação curiosa: em Roma, celebrava-se o dia extra no sexto dia de março, que era contado duas vezes.

Fonte: http://historia.abril.com.br/

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Vira-casaca
11 de Julho/Domingo

por Guilherme Campos

A gente usa a expressão “aquele lá virou a casaca” quando quer dizer que alguém trocou de opinião, de time de futebol, de partido político. E ela é bem literal. Surgiu no século 18 com Carlos Manuel III, duque de Savóia e rei da Sardenha, monarca que realmente costumava virar a casaca, conforme seus interesses políticos.

Constantemente ameaçado, ora pela Espanha, ora pela França (países com os quais se envolveu em conflitos), via-se obrigado a fazer alianças vez com um, vez com outro. Por isso, mudava as cores de sua casaca de gala de acordo com seus aliados no momento, fossem eles franceses ou espanhóis. “Tanto virou a casaca que permaneceu no poder por 43 anos”, afirma Deonísio da Silva, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP. No Brasil, parece que os políticos aprenderam a lição.

Fonte: http://historia.abril.com.br

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Eunucos: Ora, bolas! (Parte 2)
30 de Junho/Quarta Feira

por Eliza Muto e Roberto Navarro

Mil e uma noites

“A imagem que fazemos dos eunucos dos reinos muçulmanos é a daqueles escravos negros prostrados nas portas dos haréns, mas no Império Otomano, desde o século 7, eles exerceram todo tipo de função, desde zeladores de mesquitas até administradores e professores”, diz o historiador David Ayalon, autor de Eunuchs, Caliphs and Sultans: A Study of Power Relationships (“Eunucos, Califas e Sultões: Um Estudo de Relações de Poder”, sem versão em português). Segundo ele, os escravos vindos da Europa oriental, da Ásia e, principalmente, da África eram castrados em território não islâmico, na crença de que isso mantinha a terra muçulmana pura. Para efetuar o trabalho, alguns centros especializados em castração foram criados nas fronteiras do território otomano. Especializados, nesse caso, é maneira de dizer, já que não passavam de locais improvisados, onde os próprios comerciantes de escravos, ou às vezes seus captores, faziam a cirurgia, que podia até variar de método, mas era sempre dolorosa e potencialmente mortal. Em alguns lugares, o procedimento consistia em abrir o escroto com uma lâmina e apenas retirar os testículos. Noutros, tudo era retirado. Poucos dias depois, os escravos eram entregues a seus novos donos: os sultões.

Geralmente, os escravos vindos do norte da África tinham o pênis inteiro retirado. O que, na hierarquia do harém, acabava sendo um privilégio, já que só os eunucos nessa condição podiam atuar como guardiões do leito e ficar longe do trabalho pesado. Eram eles que levavam a concubina aos aposentos do sultão e os únicos homens que podiam entrar no harém no caso de emergência. “Os mais antigos chegavam a atingir o posto de kizlar agha, uma espécie de terceiro homem do império – abaixo apenas do sultão e do califa –, exercendo grande poder político na corte”, diz Ayalon.

Família soprano

No Ocidente, os eunucos mais famosos, ricos e poderosos foram os castrati, cantores que brilharam nas cortes européias dos séculos 17 e 18. Recrutados entre filhos de camponeses e artesãos ou em orfanatos, eles eram castrados na infância para manter intactos seus timbres agudos de voz e passavam a viver sob a proteção da nobreza e do clero. “Os sopranos masculinos eram as estrelas do canto barroco e das óperas”, diz o historiador Patrick Barbier, autor de História dos Castrati. Segundo ele, os eunucos-cantores ganharam os palcos europeus, tendo à sua volta um séquito de reis, papas, nobres e artistas. Mozart, por exemplo, utilizou a voz cristalina desses cantores para interpretar suas criações, até que se cansou das exigências de algumas estrelas, como Farinelli. Considerado o maior entre todos os cantores castrados, ele se tornou amigo próximo do rei Filipe V, da Espanha, onde chegou a exercer funções políticas nada desprezíveis.

Uma especificidade dos castrati era que deles somente os testículos eram extirpados pelo médico ou barbeiro, que na época eram a mesma pessoa. Segundo Barbier, a maioria podia inclusive ter relações sexuais mais ou menos normais, já que a castração não impedia a ereção nem a emissão de esperma. Nesse caso, a mais afetada (sem trocadilhos) era a aparência. Castrados muito jovens desenvolviam uma estrutura muscular próxima da feminina, com depósitos de gordura nos quadris, coxas e pescoço e ausência de pêlos. Outro problema era o interesse sexual. Sem a testosterona produzida pelos testículos, era difícil ter algum apetite pelo assunto. Apesar disso, alguns ficaram mais famosos pelas estripulias sexuais do que por sua voz e viraram ídolos das mulheres, que protagonizavam cenas de histeria dignas das fãs de Michael Jackson. Um deles, Rauzzini, chegou a posar para grandes artistas da época e virou uma espécie de cantor-modelo-manequim do século 18, mais conhecido pela beleza do que pela voz.

No fim do século 18, no entanto, a Igreja, acuada com a questão moral da castração, começou a reagir, condenando, ainda que de maneira velada, a mutilação dos jovens. E a Europa também já mostrava sinais de indignação com a prática, particularmente os filósofos do Iluminismo. Jean-Jacques Rousseau se levantou contra os “pais bárbaros” que “entregam os filhos para o prazer de gente voluptuosa e cruel.” Por fim, em 1902, o papa Leão XIII proibiu a utilização de castrati na música sacra. E, aos poucos, os eunucos-cantores foram desaparecendo.

Fonte: http://historia.abril.com.br/

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Eunucos: Ora, bolas! (Parte 1)
30 de Junho/Quarta Feira

por Eliza Muto e Roberto Navarro

Atualmente parece loucura, mas tornar-se eunuco, ou seja, castrar-se parcial ou totalmente, já foi um meio de vida, uma profissão. A tradição de contratar homens castrados nos palácios e haréns vem do mundo antigo, mas atravessou o tempo e o espaço, passou por Roma e Grécia, pelos fenícios do norte da África e chegou à Europa do século 20. Em nenhum lugar, porém, a presença dos eunucos foi mais marcante quanto na China imperial. Um velho ditado diz que lá só havia uma coisa pior do que nascer mulher – era virar eunuco. Pu Yi (1906-1967), o último imperador, registrou em seu diário que espancá-los fazia parte da rotina e que, para espantar o tédio, atirava neles com sua espingarda de chumbinho.

Mas nem sempre foi assim. Os eunucos apareceram por volta de 1050 a.C., durante a dinastia Chou – que, segundo a tradição, teria durado de 1122 a.C. a 255 a.C. –, quando a castração foi incluída nos códigos legais chineses como forma de punição. Além de castrados, os condenados eram obrigados a trabalhar de graça abrindo estradas, construindo pontes e servindo aos nobres. Essa tradição atravessou os séculos e, embora em sua maioria os castrados fossem analfabetos e trabalhassem em serviços braçais, com o tempo passaram a controlar a burocracia, fazendo fortuna e conseguindo prestígio e poder. “Em pelo menos três dinastias, os eunucos governaram de fato a China, tamanha sua influência”, diz o historiador japonês Taisuke Mitamura, da Universidade de Kioto. “Dos nove imperadores que reinaram durante os últimos 100 anos da dinastia Tang (de 618 a 907), sete chegaram ao trono por meio de conspirações de eunucos da corte, e os outros dois foram assassinados por eles, depois de contrariar seus interesses.”

Foi na dinastia Ming, que coincide com o apogeu do poder imperial na China, que a demanda por eunucos cresceu. Os Ming expandiram a grande muralha, estabeleceram um reinado estável e construíram em Pequim o complexo de palácios conhecido como Cidade Proibida, centro de seu império, que estendeu-se ao norte pela Coréia e Mongólia, e ao sul até o atual Vietnã.

Nessa época, as normas do palácio real proibiam a presença de homens não castrados nos aposentos das esposas e concubinas imperiais. Ao escurecer, todos os homens deviam deixar a Cidade Proibida, onde só permaneciam o imperador, suas esposas e concubinas, e os eunucos. Além de pajear o mulherio, eles eram também os serviçais pessoais do imperador, encarregados de banhá-lo, vesti-lo, trazer o penico para que ele pudesse se aliviar, limpar seu traseiro, cozinhar, servir as refeições, transportá-lo no colo ou em palanquins e providenciar-lhe entretenimento. Alguns eram ordenados sacerdotes para atender às necessidades espirituais do harém.

A castração voluntária era uma forma de escapar da miséria e os filhos de camponeses davam-se ao sacrifício em nome da família. Numa campanha de recrutamento de 1540, para 3 mil vagas surgiram 20 mil candidatos. “Mas havia eunucos e eunucos. E, se havia aqueles que desempenhavam funções indesejáveis, como a de carrasco, havia servidores públicos graduados, responsáveis, entre outras coisas, pela coleta de impostos”, diz Mitamura. Jovens de famílias ricas também se interessavam pelo posto, de olho em cargos de prestígio, como administradores, diplomatas e comandantes militares. Chuo Chung Chi, um cronista (e eunuco) que viveu no fim da dinastia Ming, relata que os castrados monopolizavam os projetos de construção por todo o país, incluindo as obras na casa do próprio imperador. Com tanta demanda, o recrutamento atraía multidões. Em um deles, em 1580, foram admitidos 70 mil eunucos. Na época, o harém real tinha 9 mil mulheres e 100 mil castrados trabalhavam lá.

Embora nunca mais o número de eunucos viesse a ser tão grande, eles permanecer na dinastia Ching (1644 a 1911) como funcionários influentes e ricos. “Não há o que fazer na China sem uma autorização ou indicação de nobres eunucos”, escreveu George C. Stent, acadêmico inglês que viveu em Pequim durante o século 19. Stent foi o primeiro a descrever em detalhes os procedimentos cirúrgicos da castração. No livro Essay (“Ensaio”, inédito em português), de 1877, ele conta que a castração era realizada por especialistas “licenciados pelo governo, organizados numa profissão hereditária”. Segundo ele, a cirurgia custava 6 taéis (pouco mais de 80 dólares em valores atuais) e os consultórios ficavam em cabanas nas imediações do portão ocidental da Cidade Proibida.

O castrado era obrigado a andar por duas horas para evitar coágulos e proibido de beber líquidos por três dias, para não urinar. “Os cirurgiões eram tão habilidosos que apenas 5% dos pacientes morriam”, diz o historiador americano Edward Behr, autor do livro O Último Imperador.

Depois de removidos, os genitais eram submetidos a um tratamento para preservá-los em salmoura – como se fossem pepinos em conserva –, eram colocados numa vasilha e devolvidos ao dono, que precisava apresentá-los aos superiores no palácio, comprovando a castração. A vasilha com a genitália podia ser solicitada durante uma inspeção, ou sempre que o funcionário fosse promovido. Esta exigência gerou um mercado paralelo de genitais removidos. Em caso de perda ou furto – não era raro um eunuco roubar e destruir o “precioso” do rival, para impedir o avanço de sua carreira – era preciso substituí-lo, pedindo emprestado a outro eunuco ou recorrendo a cirurgiões inescrupulosos que coletavam genitais extirpados para alugá-los ou vendê-los a preços que podiam chegar a 50 taéis.

Em 1911, a revolução republicana forçou a abdicação de Pu Yi. Embora tenham eliminado as instituições do antigo regime, os novos governantes permitiram que o imperador continuasse vivendo na Cidade Proibida com os eunucos. Em 1949, quando os comunistas tomaram o poder, os castrados viraram símbolo da decadência e foram isolados em asilos. O último eunuco chinês morreu em1996, pouco antes de completar 94 anos de idade, num templo em Pequim, onde vivia.

Fonte: http://historia.abril.com.br

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Dos mapas ao GPS
O longo percurso da humanidade até aprender a se locomover na Terra
por Fred Linardi


25 de Junho/Sexta Feira

Por muitos séculos, os seres humanos não souberam se o mundo era redondo ou plano, não imaginaram seu tamanho e tiveram dificuldade para transmitir informações de distância e orientações de locomoção. Começamos a resolver esse problema com o primeiro aparato de orientação geográfica, o mapa. Para desenhá-lo, medíamos distâncias em terra e olhávamos para a posição dos astros no céu.

Na Antiguidade, já tínhamos faróis marítimos e dominávamos astronomia e matemática o suficiente para desenhar globos complexos. No século 16, os exploradores europeus alimentavam os cartógrafos com novidades em ritmo frenético. Quinhentos anos depois, o programa Google Earth, que une imagens de satélites a tecnologia GPS, deixa qualquer pedaço do mundo ao alcance de um clique. Com o pacote de ferramentas à disposição, hoje sabemos nos locomover com segurança em terra, por mar e nos céus do planeta.

6200 a.C. - Imagem misteriosa

Encontrado em 1963, o mapa de Catal Hyük, na atual Turquia, iniciou uma polêmica. O desenho parece retratar uma cidade com 80 edificações e um vulcão. Para muitos pesquisadores, este é o mapa mais antigo já encontrado. Para outros, a primazia ainda cabe aos egípcios, que desenhavam os seus 4 mil anos atrâs.

500 a.C. - Crônicas territoriais

Os gregos são mestres da cartografia. Destaque para os relatos e desenhos de Hecateu de Mileto, que viaja ao Mediterrâneo e à Eurásia para criar uma das primeiras obras de geografia. Chamada Ges Periodos, ela é composta por dois livros, Viagens pela Terra e Pesquisa sobre o Mundo.

350 a.C. - Posição no universo

O matemático grego Eudoxo de Cnidos apresenta um mapa do sistema solar, com planetas e astros esféricos concêntricos. Seus cálculos proporcionam um salto no conhecimento da localização dos astros e da posição da Terra no espaço.

Século 4 a.C. - Mecânica celeste

A produção de aparatos de orientação naval com base num globo começa na China, com os astrônomos Shi Shen e Gan De. A esfera amilar aponta a direção dos astros e funciona como um telescópio. No globo, já estão desenhados paralelos e meridianos.

1569 - O primeiro atlas

Um dos maiores feitos da história cartográfica é realizado por Gerhard Kremer, ou Gerardus Mercatus (1502-1594). Ele projeta o globo terrestre num plano de 18 folhas impressas e o batiza de Atlas em homenagem a um titã grego, condenado por Zeus a carregar um globo nas costas.

Século 16 - Esquadro para o mar

Surge o astrolábio marítimo. Trata-se de uma variação do astrolábio, que havia sido criado em torno do século 4 a.C. e que servia para medir a localização dos astros. A versão marítima surgiu na época das grandes navegações e era composta pelo alidade, um tipo de esquadro usado até hoje para medir ângulos verticais.

220 a.C. - Agulha magnética

Sem a bússola, o descobrimento das Américas seria impossível no século 14 - quando o aparelho, como o conhecemos hoje, foi inventado. No entanto, ela já existe na China no século 3 a.C. É introduzida na Europa por árabes e depois desenvolvida pelo marinheiro italiano Flavio Gioja.

1757 - Visão aparente

Além de ser um ótimo aparato para observar os astros, o sextante fornece o posicionamento global de marinheiros e mede distâncias a partir do tamanho aparente dos objetos. A base da busca fica na comparação entre o tamanho de um astro e seu reflexo no horizonte.

1817 - Giro certo

Baseado em um eixo fixo e uma esfera que gira, o giroscópio torna-se fundamental. Em 1895, o aparelho seria fundido à bússola. Surgia assim o girocompasso, usado em navios desde 1910. Hoje, identifica o posicionamento de aviões em parceria com o altímetro, uma invenção de 1924.

1993 - Você está aqui

Desenvolvidos nos anos 60 e disponibilizados para uso civil, satélites possibilitam a criação do Sistema de Posicionamento Global (GPS), que inicia uma nova fase da história dos instrumentos de orientação. Hoje, os motoristas acessam mapas na internet e se orientam com GPS em seus carros

Fonte: http://historia.abril.com.br


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Maria-vai-com-as-outras
22 de Junho/Terça Feira

Quando você chama alguém de “maria-vai-com-as-outras” está dizendo que a pessoa não tem opinião própria e, por isso, segue a vontade de outros. Mas, afinal de contas, quem foi essa primeira sonsa? De acordo com o pesquisador Brasil Gerson, autor de História das Ruas do Rio, a expressão tem origem no início do século 19, com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. A mãe do rei João VI, a rainha Maria I, costumava passear às margens do rio Carioca, no antigo bairro de Águas Férreas. Acontece que Maria I era conhecida por sua maluquice (manifestada após a morte do filho e da Revolução Francesa), tanto que era tratada como “A Louca”. Como ela ia passear levada pelas mãos de suas damas de companhia, o povo dizia: “Maria vai com as outras”.

Autora: Ernani Fagundes



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Da farmácia para a mesa
Muitos alimentos já tiveram fama de curar doenças. Com o passar do tempo, alguns se mostraram bem menos milagrosos
por Flávia Pinho
16 de Junho/Quarta Feira

Azeite contra a dor de ouvido

Até bem pouco tempo atrás, o azeite era considerado um santo remédio para dor de ouvido: bastava pingar algumas gotas quentes. São crenças que ainda sobrevivem na medicina popular em várias partes do mundo. "Os camponeses da Toscana até hoje usam o azeite para reduzir as irritações produzidas por urtigas e curar machucaduras", afirma o italiano Luciano Percussi no livro Azeite - Histórias e Receitas. Muito antes, desde a Idade Média, era usado como isolante contra o frio. As mães chegavam a untar a pele dos bebês nos dias mais gelados.

Chás etílicos

Os árabes é que descobriram o álcool proveniente da cana. "Eles inventaram o alambique", afirma o historiador Ricardo Maranhão, da Universidade de Gastronomia Anhembi-Morumbi. A princípio, a bebida era usada para diluir os medicamentos, que não passavam de infusões ou chás misturados. No Rio de Janeiro do século 19, essas beberagens ainda eram vendidas nas boticas, que faziam as vezes de mercearias. O povo ia até lá para fazer compras, aproveitava para dar uma bicadinha na bebida ali mesmo, no balcão... e assim nasceu o botequim.

Soja, só fermentada

Cinco mil anos atrás, os chineses já consideravam a soja um grão sagrado, ao lado do arroz, do trigo, da cevada e do milheto (variedade de milho de grãos miúdos). Mas isso dependia de como ela era preparada. Os médicos aprovavam os grãos fermentados, como aparecem no shoyu e no missô. Já a versão crua ou cozida era tida como perigosamente prejudicial. Não é que eles tinham razão? Hoje se sabe que a soja contém uma série de fatores que dificultam a digestão e impedem a absorção de nutrientes, fatores neutralizados pela fermentação.

Batata para voar


Para os incas, a batata significava vida, e não por acaso: poucos alimentos vingavam a mais de 3500 metros acima do mar. Os colonizadores espanhóis não compraram a ideia. Até levaram algumas amostras para a Europa, mas as plantas não passaram dos jardins. "Seu maior crime era pertencer à família das belladonas, que contém uma substância para se fazerem unguentos e, acreditava-se, dava às bruxas o poder de voar", afirma a crítica Danusia Barbara no livro Batata. Dizia-se também que o tubérculo propagava tuberculose, raquitismo, sífilis e luxúria.

A força do espinafre

Lembra a receita de força do Popeye? Pois o personagem foi criado no finzinho da década de 20, ainda em quadrinhos, no embalo da fama que o espinafre já tinha: a de ser um alimento capaz de fortelecer qualquer fracote. "O objetivo da história era lançar o espinafre enlatado", afirma Ricardo Maranhão. Esse superpoder, porém, já não convence ninguém. Apesar de ser riquíssima em ferro, a verdura contém oxalato, substância que inibe a absorção do nutriente pelo organismo.

Doce para a fraqueza

O açúcar passou a fazer parte das receitas culinárias por volta do século 15, quando os portugueses investiram pesado no plantio da cana em suas colônias. Antes disso, era muito caro - e não servia para adoçar bebidas e alimentos, tarefa que cabia ao mel. "O açúcar era utilizado somente para tratar doenças ligadas à fraqueza. Na Antiguidade, acreditava-se que a saúde dependia do equilíbrio de elementos quente, frio, úmido e seco do organismo, e o açúcar era o componente quente e energético", diz Ricardo Maranhão.

Refrigerante de botica

Muito se especula a respeito da Coca-Cola: que desentope pia, que bronzeia, que espanta o sono... Uma dessas histórias é verdadeira: a bebida de fato nasceu para ser vendida em farmácia. O inventor era um farmacêutico, o americano John Pemberton (1831-1888), de Atlanta. Em 1886, ele pesquisava a cura para dores de cabeça e chegou a uma fórmula escura e espessa. Levado à Jacob’s Pharmacy, o xarope foi misturado a água gasosa e oferecido aos clientes, pela primeira vez, no dia 8 de maio - o copo de 237 ml custava 5 centavos de dólar. Logo a farmácia vendia nove copos diários.

Fonte: http://historia.abril.com.br/


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Escova de dentes: como fazíamos sem
12 de Junho/Sábado

por Lívia Lombardo

Sem a escova de dentes, não havia romântico que resistisse a um beijo de bom dia. Amor, carinho, lábios... e aquela carninha que restou de refeições anteriores. Algum egípcio notou esse problema: a primeira escova de que se tem notícia foi encontrada numa tumba de 5 mil anos. Na verdade, era um pequeno ramo de planta que foi desfiado até as fibras aparecerem – elas eram esfregadas nos dentes para limpá-los.

O mau hálito deve ter incomodado os povos antigos. Tanto que outras alternativas para auxiliar na higiene bucal foram criadas com o passar dos anos. Além dos dedos, de folhas e de gravetos, pequenas varetas com a ponta amassada também eram utilizadas para limpar os dentes. Diocles de Caristo, um médico grego do século 4 a.C., deixou escrito um documento em que recomendava a seus clientes que todas as manhãs colocassem uma fina camada de hortelã pulverizada nos dentes e nas gengivas e a esfregasse com os dedos para remover restos de alimentos. Já os romanos limpavam seus dentes com um pó bem diferente – os ingredientes eram cinzas de ossos e dentes de animais, ervas e areia. A importância da escovação já era tão grande que os aristocratas tinham escravos apenas para limpar seus dentes.

Na Idade Média, as escovas ainda não haviam evoluído muito, mas as pastas de dentes já tinham melhorado bastante. Nessa época, eram preparadas à base de ervas aromáticas, como a sálvia. Mas, para eliminar o mau hálito, eram recomendados bochechos com urina.

A escova de dentes de cerdas só foi inventada em 1498, pelos chineses. Porém, além do fato de serem muito caras – e, por isso, famílias inteiras terem que dividir uma peça –, eram feitas de pêlos de porcos atados a pedaços de bambus ou ossos. Com a umidade, os pêlos mofavam e enchiam a boca de fungos.

O problema só seria resolvido em 1938, nos Estados Unidos, com o surgimento de cerdas de náilon. Na Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos eram obrigados a usar a escova de dentes. De lá para cá, ela só foi se aperfeiçoando. Uma pesquisa feita em 2003 nos Estados Unidos pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts supreendeu pelo resultado: para os americanos, a escova de dentes é a invenção mais importante da história da humanidade.

Fonte: http://historia.abril.com.br


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Como fazíamos sem professor?
Na Pré-História, a tarefa de educar cabia a todos os adultos
por Lívia Lombardo
07 de Junho/Segunda

Desde que a linguagem surgiu, a educação ajuda o homem a garantir a sobrevivência. Ela permite que as habilidades e os conhecimentos adquiridos com a experiência sejam repassados para as gerações seguintes. Mas, por muitos séculos, não existiam professores, e todos os adultos transmitiam informações aos jovens. Isso acontecia de forma oral e espontânea. Com o desenvolvimento da escrita, apareceu a necessidade de que pessoas especializadas garantissem a formação, realizada de formas diferentes, dependendo da cultura local. Esparta, por exemplo, priorizava o treinamento físico. Todo menino tinha um tutor, que exercia a função por amizade e não recebia pelo serviço. Já os atenienses foram os primeiros a cobrar para transmitir seus ensinamentos, inaugurando assim a profissão docente. Para eles, a educação era constituída pela parte física, com professores chamados de kitharistés, e pela intelectual, ministrada pelos paidotribés. Mais tarde, surgiu um outro tipo de cargo, o grammatistés, cuja função era ensinar a ler e a escrever. No século 5 a.C., ganharam espaço os sofistas, educadores ambulantes remunerados. Em Roma, também esses profissionais itinerantes se chamavam retores. Havia ainda os lud magister, professores primários que alfabetizavam os mais pobres. Durante a Idade Média, a educação ficou a cargo da Igreja, que a restringia a membros do clero. A partir do ano 789, todo mosteiro tinha uma escola. Os professores não faziam cursos para ministrar aulas, situação que só mudou a partir do século 19. No Brasil, os jesuítas dominaram o sistema de ensino de 1549 até 1759, quando foram expulsos do país. Ainda no século 18, surgiram os educadores profissionais. Nossa primeira escola de formação de educadores foi fundada no século seguinte, em 1835, na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro.

Fonte: http://historia.abril.com.br/

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"Fazer das tripas coração"
01 de Junho/Terça Feira


Expressão está ligada à anatomia humana

Não se sabe ao certo quando surgiu a frase "fazer das tripas coração", usada quando alguém consegue resistir a uma adversidade mais do que se supunha possível. Mas é fácil entender o que a expressão significa.

É claro que as tripas, ou intestinos, são muito importantes para qualquer organismo. Mas nada se compara ao coração, órgão responsável pela circulação do sangue, que transporta oxigênio e nutrientes para as células.

Assim, "fazer das tripas coração" é realizar um esforço sobre-humano, comparável ao de pegar as tripas, com suas funções bem mais limitadas, e conseguir que elas assumam a importância que tem o coração.

por Lívia Lombardo

Fonte: http://historia.abril.com.br/

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Aborto: o começo do fim (parte 2)
08 de Maio/Sábado

Pela Pátria:

No fim do século 18, após a Revolução Francesa, passou-se a acreditar que um país poderoso era aquele com muitos habitantes. Cada criança era um futuro soldado, trabalhador, contribuinte. Ser mãe era questão patriótica. O feto foi transformado em entidade autônoma pelas descobertas científicas e, à luz das necessidades políticas, em futuro cidadão, escreveu a jurista Giulia Galeotti, em História do Aborto. Isso se refletiu no Brasil do início do século 20. O papel da mulher é reconsiderado, por sua importância para projetos nacionais, diz Fabíola Rohden, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Luiz Lima Vailati, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e professor da Fundação Armando Alvares Penteado, diz que, apesar da força da Igreja, o aborto sempre foi praticado. Sua prática cresceu inclusive no Brasil, mesmo no século 19, quando Estado e Igreja enfatizam a proteção do feto e aumentam a repressão ao procedimento. Na Inglaterra, famílias mais pobres recorriam a ele, e depois a classe média, para garantir um padrão de vida economicamente seguro.

A Itália fascista reprimiu o controle de natalidade a partir de 1926. Os nazistas estimularam a reprodução da "raça pura", enquanto tentavam impedir nascimentos entre os povos dominados. Em 1942, no gueto de Kovno, na Lituânia, um decreto condenou à morte todas as judias grávidas. O rabino Ephraim Oshry permitiu o aborto. Os judeus não aceitavam, mas o rabino podia autorizá-lo em casos extremos. Em 1936, 16 anos após a revolução bolchevique legalizá-la, a União Soviética de Stálin voltou a proibir a prática. Em 1943, na França, a parteira Marie-Louise Giraud foi guilhotinada por ter interrompido 26 gestações: o aborto era ameaça ao Estado.

As décadas seguintes à Segunda Guerra foram de revolução sexual, graças à pílula anticoncepcional. O feminismo, surgido no século 19, ganhou força. Nos anos 60, a prática virou bandeira do direito civil e muitos países o legalizaram. Os novos ventos sopraram até no Vaticano, e uma comissão convocada pelo papa João XXIII aprovou a pílula, que, no entanto, continuou proibida pela encíclica Humanae Vitae, de 1968. O interessante, diz Vailati, é que, a partir dos anos 60, Igreja e médicos substituíram argumentos religiosos por científicos.

No fim do século 20, o controle político do aborto evidenciou-se. Nos Estados Unidos, onde a lei varia entre os estados, as clínicas de aborto têm vidro blindado. Após a revolução de 1979, o aiatolá Khomeini proibiu a prática em qualquer situação no Irã (no Islã, é aceito até o quarto mês ou para salvar a mãe). A diferença entre o início da vida para alemães orientais e ocidentais obrigou a criação de uma lei sobre o aborto, para a unificação dos países, em 1990. Na China, que proíbe mais de um filho, a interrupção da gravidez é quase obrigatória.

Não creio que a discussão vá cessar, diz Giulia Galeotti. Mesmo o Juramento de Hipócrates ainda gera discussões: os favoráveis à prática atribuem sua condenação ao fato de o aborto, na época, oferecer mais riscos que o parto. Um debate interminável, como devia prever São Jerônimo (342-420). O homem que converteu ricas matronas romanas ao cristianismo não conseguiu deixá-las contra o aborto. Chocou-se ao ouvir delas: Todas as coisas são castas para os castos. A aprovação da minha consciência basta-me.

Fonte: http://historia.abril.com.br/ Related Posts with Thumbnails
Aborto: o começo do fim (parte 1)
07 de Maio/Sexta Feira

Religiosos, políticos e médicos debateram, condenaram ou defenderam o aborto ao longo dos séculos. Uma prática que nem os maiores tiranos nem os papas mais influentes conseguiram banir


Os livros que compõem a Política, de Aristóteles (384–322 a.C.), um dos pilares da filosofia ocidental, discutem assuntos diversos: sociedade, educação, tipos de governo e interesses coletivos, como o crescimento excessivo da população. Sobre isso, o filósofo grego escreveu que "se deve fixar o número máximo de procriações e, se alguns casais forem férteis para além do limite, é necessário recorrer ao aborto". Décadas antes, Hipócrates (460–377 a.C.), preocupado com o risco de morte das mulheres, no célebre Juramento (declarado até hoje por médicos formandos), disse: Nunca sugerirei a nenhuma mulher prescrições que a possam fazer abortar. Em Roma, o poeta Ovídio (43 a.C17 d.C.) carregava com tintas morais suas obras que tratavam do assunto: Se Vênus, grávida, tivesse maltratado Enéias no útero, a terra teria ficado sem os Césares. Enquanto a questão era discutida, as pessoas não esperavam a conclusão que até hoje não veio. Abortavam e seguiam com a vida.

Plínio, o Velho (23–79 d.C), que julgava o aborto um desvio feminino que torna o ser humano inferior às bestas, listou em A História Natural diversas plantas abortivas. Por exemplo, o poejo, popular ainda em 1993. Chá de poejo, ou Pennyroyal Tea, é o título de uma música do Nirvana que fala de aborto. Desde a Pré-História, o homem tenta controlar o nascimento, mas o modo como encaramos o aborto mudou bastante ao longo dos séculos. Não era punido pela lei na sociedade grega, mas foi muito discutido por filósofos como peça-chave da pergunta que não quer calar há mais de 2 mil anos: quando começa a vida?

Naquela época, a gravidez só era confirmada ao primeiro movimento do bebê no útero. Aristóteles dizia que o aborto para fins de controle populacional deveria ser realizado antes do surgimento da alma, e que era necessário para evitar o abandono de crianças, corriqueiro na Grécia.

Abandonar, vender ou matar filhos inesperados era a solução para controlar o tamanho da família romana. Sorano de Éfeso, no século 2, defendia o aborto em caso de perigo à saúde da mãe, mas apenas prostitutas e mulheres livres do poder masculino eram independentes para abortar. Interromper a gravidez sem o consentimento do marido e privá-lo de um herdeiro era motivo de separação ou até de pena capital (depois do parto, para salvar o bebê). Os homens se opunham ao aborto porque ele feria o interesse masculino. No século 2, foi criminalizado, punido com o exílio.

O cristianismo, na Idade Média, mudou alguns aspectos na vida, mas não todos. "As insistentes condenações do aborto e da contracepção por parte do clero podem indicar a continuação dessas práticas", escreveu o historiador canadense Angus McLaren, em História da Contracepção. A Igreja fez do sexo um símbolo de moralidade. Mas Santo Agostinho (354-430) não considerava o aborto um assassinato, e sim uma perversão. Ele sustentava o pensamento aristotélico do início da vida no 40º dia a partir do primeiro sinal perceptível do bebê, no caso de meninos, e no 80º, nas meninas.

Esse conceito só seria derrubado no século 19. A influência da Igreja acaba provocando mudança de foco: não mais o homem e sim o feto devia ser protegido. No século 13, leis canônicas e civis fortaleceram a distinção entre feto com alma e sem alma, entre um homicídio e um crime menor. Mas, nesse debate entre Igreja e legisladores reais sobre o início da vida, faltava a ciência. A descoberta do óvulo, em 1827, transformou a idéia da concepção: agora, a vida começava na fecundação. Ao longo da Idade Moderna, aprendeu-se mais sobre a evolução do feto no útero. Essa percepção, ampliada com a obstetrícia, o estetoscópio, o raio X e o ultra-som, nos 300 anos seguintes, mudou o modo de médicos, políticos e religiosos lidarem com o tema. Mas as mulheres ainda tomavam medicamentos por conta própria e recorriam a parteiras.

Fonte: http://historia.abril.com.br Related Posts with Thumbnails