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Porque sei que vou passar
25 de Agosto/Quarta Feira

De repente, sempre de repente, dou de cara com a mais bruta realidade: vou passar. As páginas de meu livro estão se esgotando; os leves estalos de meu relógio, silenciando. A lua não passará por muitos outros eclipses antes de meu sono derradeiro. De dentro, ouço a incessante ladainha: Vou passar, vou passar, vou passar...

Sei que vou passar. Prometo pular da cama na segunda-feira sem a obrigação de mudar o mundo antes que chegue o sábado. Inconformado com roteiros alheios, prometo não apostar corrida com este maldito calendário que, ultimamente, anda tão apressado. Prometo ser mordomo do dia e vigiar para que a existência não desapareça em fatias semanais; que as semanas não se diluam em meses; que os meses não se esfarelem em anos; e que os anos não se acabem em décadas.

Sei que vou passar. Prometo não negar aos meus olhos a deliciosa lembrança da professorinha de matemática de minha adolescência. Mariazinha tentou ensinar-me equações do terceiro grau enquanto meus olhos apaixonados se concentravam na geometria do seu corpo. Prometo remontar aqueles dias quando desconhecia moralismos e tabus religiosos que, depois, assassinaram as minhas paixões adultas.

Sei que vou passar. Prometo recuperar o tempo que desperdicei sem ler. Vou continuar a escolher com apuro os bons escritores. Já aprendi com Machado de Assis a lembrar-me que a hipocrisia social é avassaladora; e que só conseguimos ser honestos sobre a vida se escrevêssemos “Memórias Póstumas”. Graciliano Ramos me ensinou sobre a miséria que condena o pobre a menos que uma cadela – a Baleia de "Vidas Secas". Fernando Pessoa, meu poeta maior, me conduziu à coragem de enfrentar a angústia existencial mesmo quando produz "Desassossego". Com Dostoievski aprendi que um Raskolnikov, ambiguamente assassino e redimido, habita em cada um de nós. Victor Hugo me fez descobrir Cristo na vida de Jean Valjean, o egresso das galés, que ama sem conhecer limites.

Sei que vou passar. Prometo continuar correndo longos quilômetros. Vou continuar a encharcar a camisa de suor por pura diversão. E quando beber água de coco e alongar os músculos doloridos trarei um leve sorriso de contentamento. Hei de manter ares de campeão nas maratonas, São Silvestres e em todas as corridas de rua que participar. Ao pendurar a medalha de participação no peito, vou deixar que um santo orgulho enrubesça o meu rosto.

Sei que vou passar. Prometo contar para os netos as histórias de meus pais. Ao narrar o que vivenciei de um passado que já não existe, transmitirei o legado de nossa família . Quero entregar a eles a carteira de Atleta do Corinthians do papai; meus netos se tornarão os futuros guardiões de uma relíquia sagrada. O poema que minha mãe escreveu em uma tarde triste continuará na parede do meu escritório. Prometo nunca riscar da memória o sorriso melancólico da mulher que me deu colo e peito.

Sei que vou passar. Prometo a brindar o vinho como liturgia divina, que celebra a aliança de amigos. Vou considerar a hora em que a lua tinge o dia de prata como a melhor hora do dia. Prometo ser amigo da noite, vizinho do silêncio e parceiro das madrugadas solitárias.

Sei que vou passar. Prometo ser inteiro no que fizer, amigo fiel, bondoso com o desconhecido e terno na hora dos tropeços dos outros. Vou procurar indignar-me com a injustiça; reverenciar os pacificadores, só eles são chamados filhos de Deus.

Sei que vou passar. Prometo encher a minha aljava com a delicadeza das rosas, a irreverência dos colibris, a folia dos golfinhos, a calma do jabuti, a imponência dos carvalhos e o renascer das marés. Procurarei trazer nos lábios, mesmo diante da grande crueldade, um sorriso sempre a dizer "sou feliz".

soli deo gloria Autor: Ricardo Gondim

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br/

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A cultura pop chegou para ficar?
25 de Junho/Sexta Feira

Operado de uma hérnia simples, vi-me obrigado a uma razoável quarentena em casa. Com bastante tempo à minha disposição resolvi, por um dia, mergulhar no mundo televisivo. Liguei minha Sony e, com o controle remoto na mão, viajei, via cabo, às diversas opções oferecidas pela mídia eletrônica. À noite, senti-me vencido. O que assisti não era lazer, tampouco cultura. Era pura perda de tempo.

Um insulto à inteligência
Cada dia mais me espanto com a superficialidade de minha geração. Na televisão, os noticiários estão cada vez mais rasos; evitam os temas relevantes, fogem da discussão imparcial. A “ratinização” dos programas de auditório chega a agredir o bom senso. A dramaturgia das novelas é um acinte à arte teatral. Os diálogos são patéticos. Bons atores são logo substituídos por moças e rapazes bonitinhos. Não sabendo representar, mecanicamente repetem scripts. Os programas infantis em nada educam. Simplesmente enchem os cofres de suas apresentadoras, que nada têm na cabeça e que ensinam comportamentos éticos, no mínimo, questionáveis.

Na música, as letras medíocres, para fazer sucesso, necessitam apelar para sentidos ambíguos. Os rebolados das dançarinas tentam compensar a rima pobre. Os grandes poetas e músicos se esforçam, mas parecem carecer da inspiração de tempos não muito antigos, quando escreviam e cantavam com maestria.

Os filmes, fazendo apologia da violência, exploram o macabro e o terror. Não conseguem criar tramas inteligentes. Mostram-se, diante de nossas telas, produções com enredos repetitivos, direção mal feita; claramente produzidos para dar lucro. Filmes destituídos do ideal de fazer arte.

As revistas que entulham as bancas e os livros que aparecem nas listas dos best sellers são risíveis, sob o ponto de vista literário.

Os estudiosos de nossos tempos dizem que uma das características da pós-modernidade é a falência da chamada “alta cultura” e a emergência da “cultura pop”. Por “alta cultura” devemos entender o esforço humano de dar estrutura à vida. É a complexa produção humana que inclui o saber, crenças, arte, moral, leis, costumes e todas as expressões humanas.

A indústria cultural
A cultura pop fortaleceu-se com a massificação dos meios de comunicação. A indústria da informação e do lazer, que oferece um franco acesso ao conhecimento, vagarosamente nivelou a produção cultural por baixo. Hoje, poucos conhecem Shakespeare, nunca leram Dostoievski, mal saberiam mencionar algum livro de Machado de Assis ou de Graciliano Ramos. Rapazes e moças detestariam uma ópera de Wagner ou de Carlos Gomes. A grande maioria nunca leu Carlos Drummond e nem sabe dizer quem foi Fernando Pessoa. Em compensação, conhece bem os filmes de Van Damme e do Bruce Willis. Gosta de ler Paulo Coelho e canta as músicas do Tchan. Meninos e meninas ainda cantarolam as letras dos Mamonas Assassinas. Diariamente acompanham a novela das oito, dando-lhe índices de audiência acima de cinqüenta pontos. Adolescentes deliram com a mocinha vestida em roupas íntimas, insinuando cenas de sado-masoquismo.

O ocidente termina o século XX impregnado de uma cultura pop, que Richard Hamilton, artista inglês, conseguiu descrever como: “dirigida às massas, compreensível sem exigir reflexão, facilmente substituível por outra emoção, produzida às pressas, sensual, glamourosa, aética e sempre visando o máximo de lucro”.

A produção cultural do ocidente empobreceu. Daí a pertinência do lamento de T. S. Eliot: “Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos com a informação? Os ciclos do céu em vinte séculos nos levaram para mais longe de Deus e mais próximos do pó.”.

A igreja
Mais triste é constatar que a igreja também foi afetada por essa cultura de massas. Primeiro nos Estados Unidos, depois na Europa e agora na América Latina, há uma forte tendência de transformar a igreja em big business. Pior, big business do lazer espiritual.

Pastores e padres abandonaram sua vocação de portadores de boas novas. Assumiram novos papéis: animadores de auditórios e levantadores de fundos. O púlpito transformou-se em mero palco. A igreja, simples platéia. O clero arremedou a fama dos artistas. Com estilos de vida extravagantes e caros inebriam as multidões que também almejam galgar a celebridade.

Outros enxergaram-se como empresários, vestiram-se como empresários e, pasmem, contrataram guarda-costas armados para se protegerem. Acham-se seqüestráveis. Os cultos já não estão centrados na máxima de João Batista: “importa que Ele cresça e que eu diminua”. Sermões podem ser facilmente confundidos com palestras de neurolingüística. Cantores e “artistas” se atropelam, querendo renome e gordos cachês. O cristianismo ocidental não conseguiu salgar, perdeu o sabor e conformou-se em ser raso. Os vendilhões do templo voltaram e armaram suas tendas.

Infelizmente, atraem-se grandes multidões não pela força argumentativa do evangelho, mas pelo bem concatenado marketing. Impressionam-se as platéias pela capacidade de aproximar a linguagem religiosa da cultura pop e não por propor conteúdos sólidos de vida. Até pouco tempo, as igrejas neopentecostais acreditavam que seu descomunal crescimento vinha de uma bênção especial de Deus sobre suas novas propostas de prosperidade. Hoje, a explosão pop do catolicismo já atrai multidões tão numerosas quanto as dessas bem sucedidas igrejas evangélicas. Prova-se assim que qualquer credo ou confissão religiosa que souber promover um culto com as mesmas características da cultura pop também experimentará um crescimento vertiginoso.

Sempre que a igreja começou a percorrer uma senda perigosa e a aproximar-se dos sistemas doentes que deveria denunciar, houve fortes movimentos contrários. Quando Roma parecia estar à venda e o clero católico se emaranhou com o poder dos reis, as ordens monásticas apareceram. Quando Tetzel vendeu indulgências, prometendo menos sofrimento no purgatório em troca de algumas moedas, Lutero protestou. Quando a igreja protestante se institucionalizou e perdeu relevância, surgiram os anabatistas propondo a separação radical da igreja e do estado. Quando a rigidez teológica tentava sufocar a ação de Deus, os pentecostais levantaram-se mostrando que Ele age como quer e não respeita as sistematizações humanas.

Uma nova reforma
Precisamos de novos movimentos de reforma e protesto dentro do cristianismo ocidental. Os desafios de hoje requerem que os pastores voltem a “apascentar o rebanho de Deus, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto” (1 Pe 5.2). Que as igrejas sejam espaços de fraternidade onde nos revestimos como “eleitos de Deus, santos, e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade” (Cl 3.12).

Diante do estrelismo, os pastores precisam optar pela discrição; reaprender a ser singelos de coração. Devem lembrar-se de uma citação antiga: “A glória é como um círculo n’água que nunca deixa de aumentar, até que por força de seu próprio crescimento dispersa-se em nada”.

O crescimento numérico das igrejas engana. Tem mais a ver com fenômenos sociais que uma legítima ação do Espírito Santo. Líderes religiosos devem evitar essa corrida insana de notoriedade. A riqueza e popularidade de alguns nada significam nas realidades espirituais. Euclides da Cunha advertia em Os Sertões: “Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões tacanhas”. Deixemos que o apóstolo Paulo fale novamente aos nossos corações: “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E na verdade, tenho também por perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo” (Fp 3.7-8).

A igreja será sal e luz somente quando caminhar na rota inversa das tendências de sua geração e mostrar-se simples em suas ambições. Caso contrário, continuará dizendo a si mesma: Estou rica e abastada e não preciso de coisa alguma”. Mas ouvirá de Cristo: “Não sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre cega e nua.” Que Deus nos ajude a comprar ouro refinado pelo fogo para nos enriquecer, vestiduras brancas para nos vestir, a fim de não ser manifesta a vergonha da nossa nudez. Compremos colírio para ungir os nossos olhos e vejamos (Ap. 3.17-18).

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

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A perigosa arte de enganar
25 de Maio/Terça Feira

Alguns divertimentos infantis são universais. Um dos que mais gostávamos, e que nos entretinha muito, chamávamos de esconde-esconde. Consistia em esconder do restante dos amigos de tal maneira que ninguém conseguisse nos descobrir. Hoje, depois de crescido, surpreendo-me que essa brincadeira seja comum também entre os adultos. Aliás, parece que gente grande gosta mais de brincar de esconde-esconde que as crianças. Só que agora, o jogo é mais perigoso.

O poeta e a mentira
Mentimos, enganamos e dissimulamos. Criamos mecanismos que nos escondem de nós mesmos, do próximo e de Deus. Fernando Pessoa olhou para sua própria vida e não se reconheceu no que foi; escondera-se por detrás de máscaras e, corajoso, desabafou:

“Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje, não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.”

Eduardo Giannetti, que escreveu um excelente livro com o título Auto-Engano (Companhia das Letras), comentou sobre esta poesia de Fernando Pessoa: “A experiência do poeta dramatiza e leva ao extremo uma possibilidade que é comum a todos: será minha esta vida?” Pessoa, de tanto dissimular, de tanto usar máscaras, já não se encontrava. Laconicamente, concluiu que não era quem sempre tentou ser, e agora não possuía mais forças para tentar ser outra pessoa. A máscara estava pegada à cara.

O autor do Eclesiastes buscou descobrir-se e, cansado, declarou: “Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento” (2.17). Jeremias, também exausto de lidar com tantos engodos e artifícios de dissimulação, perguntou: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” (17.9).

A mentira e a história
Os artifícios da dissimulação e do auto-engano não acontecem somente nos indivíduos. Países como a União Soviética do expurgo stalinista, a Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, e a Argentina do regime militar demonstram claramente que a arte da dissimulação pode ser globalizada.

O próprio cristianismo já sucumbiu várias vezes à mentira. Acreditava-se que as Cruzadas eram legítimos esforços para resgatar os monumentos cristãos. Hoje, sabe-se que haviam outros interesses por detrás daquelas empreitadas malucas. O mesmo pode ser dito da Inquisição, da terrível perseguição que os anabatistas e pietistas sofreram na Europa, e assim por diante. Matou-se muito em nome de Deus.

Quando houve eleição para a última constituinte, mentiu-se. Várias igrejas acreditaram na versão enganosa de alguns candidatos evangélicos: haveria uma conspiração católica para aprovar uma Constituição discrimi-natória, favorecendo a Igreja de Roma. Depois, na eleição para presidente, ouviu-se que determinado candidato mandaria fechar igrejas e reinstituir o comunismo no Brasil. Os evangélicos votaram maciçamente naquele que acabou eleito. As conseqüências dessa mentira quase levaram o país a um impasse institucional, com o impeachment do presidente da República.

Fugindo do engano
Há meios de nos salvaguardarmos do auto-engano pessoal ou coletivo. Permitam-me algumas pistas:

Necessitamos de uma idéia menos divina e mais humana de nós mesmos. A pregação evangélica desses últimos dias vem tão repleta de arroubos triunfalistas, que um novo cristão pensa nunca ter um revés em sua vida. Doenças, desempregos, tristezas, mortes prematuras e inúmeros desapontamentos são varridos para debaixo do tapete religioso, levando as pessoas a viverem uma farsa: os crentes estão imunes ao sofrimento. Com adesivos nos vidros dos automóveis, caixinhas de promessas com versículos fora de contexto e sermões superficiais, vai se disseminando uma mensagem cristã distorcida. As igrejas já não têm espaço para os que sofrem, faltam-lhes a mensagem de consolo. Despreza-se que doenças, pobreza, mortes prematuras participam dos relatos bíblicos e da vida dos seus personagens em proporção maior que curas, riqueza e arrebatamentos espirituais. Oxalá as igrejas evangélicas não se esquecessem de que na conversão não nos tornamos anjos, apenas pecadores justificados pela graça. Pensar o contrário é enganar-se diante de um espelho torto.

Necessitamos rever nosso conceito de fé. Ele também pode gerar auto-engano. Proponho que, antes de ser uma força dirigida a Deus, que o impulsiona a fazer aquilo em que estaria hesitante, fé deve ser entendida como uma confiança inabalável em seu caráter. Essa noção de fé como um poder gera o sentimento errado de que algumas pessoas têm uma oração mais poderosa que a de outras. Crentes juram que alcançaram respostas às suas petições porque receberam a “oração forte” de algum líder religioso. Isso gera uma espiritualidade que busca a Deus para aumentar a força da fé, nunca para ter maior intimidade com Ele. Enganam-se os que pensam ter maior cacife espiritual porque conseguiram arrancar de Deus um maior número de respostas aos seus pedidos. Multidões se iludem com a possibilidade de que, se aprenderem a fórmula correta de se dirigir a Deus, vão galgar maior poder espiritual.

Há conseqüências desastrosas em acreditar-se mais “espiritual” que os demais. Além de ofender a Deus, promover um messianismo patético, isoo gera uma espiritualidade utilitária. Deus passa a ser apenas um meio, uma força domesticada. Isso confirma a ilusão luciferiana do Éden: “somos deuses. Podemos induzir a divindade a agir de acordo com nossos desejos”.

Quem está de pé...
Por último, não podemos acreditar que erros, heresias e muita incoerência só aconteceram no passado. Criticamos os acontecimentos vergonhosos da Igreja em séculos passados e não aceitamos que podemos cometer deslizes tão feios quanto aqueles. A falsa noção de que possuímos uma revelação mais elevada que a de Pedro, Paulo e alguns dos pais apostólicos pode ser letal. Se a soberba precede a queda, achar que nos encontramos acima do fracasso já nos faz vulneráveis a ele — quem está em pé, veja que não caia. Não somos os escolhidos da última hora nem temos uma graça incomum. O perigo de sermos jogados na outra extremidade da decepção e do imobilismo é grande, já que ninguém consegue evitar o tropeço. E se não estivermos preparados para nossos próprios fracassos, nos afogaremos no oceano da culpa e auto-comiseração. Giannetti nos adverte: “Quando o mar encrespa e o céu interno fecha, a inflação moral pode virar forte deflação. O estado depressivo da mente leva um homem a ficar privado daquele modicum de boa vontade, apreço e respeito por si mesmo que torna a consciência de si aprazível. O deprimido vive como um pária na sarjeta de sua convivência interna [‘Não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu’], e sua mente é capaz de dar crédito sincero às mais sombrias e dolorosas recriminações e confabulações íntimas acerca de si.” O refluxo de tanto ufanismo pode, no futuro, causar uma enorme depressão.

O salmista perguntou: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?” (19.12). Também pediu: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” (139.23-24). Percebe-se que os mecanismos de auto-engano e da dissimulação são muito sutis. Portanto, esvaziemo-nos de nossa auto-suficiência. Busquemos a verdadeira renovação espiritual, promovida pelo Espírito Santo. Só Ele esquadrinha o coração, prova os pensamentos, e dá a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto de suas ações.

A Igreja evangélica necessita de uma nova Reforma. Desçamos de qualquer pedestal da arrogância e da auto-suficiência, e deixemos que a luz perscrutadora do Espírito penetre em todas as câmaras de nosso viver. Só assim poderemos nos imaginar noiva do Cordeiro, sem ruga e sem mácula.

Soli Deo Gloria.
Autor: Ricardo Gondim


Fonte: http://www.ultimato.com.br Related Posts with Thumbnails
Igrejas também morrem
16 de Maio/Domingo

Na Inglaterra, entrei em um salão de "snooker" sentindo náuseas. A vertigem que invadiu meu corpo foi diferente de tudo que já sentira antes. As mesas verdes espalhadas pelo largo espaço lembravam-me um necrotério. Eu explico o porquê. Aquele salão havia sido a nave de uma igreja, que definhou através dos anos, até ser vendido. O pastor que me levou nessa insólita visita relatou que na Inglaterra há um grande número de igrejas que morreram lentamente. Devido aos altos custos de manutenção, só restava ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são os muçulmanos, donos de lojas de antiguidades e, infelizmente, de bares e boates. Vendo o púlpito talhado em pedra com inscrições de textos bíblicos — "Pregamos a Cristo crucificado"; "O sangue de Cristo nos purifica de todo pecado" —, voltei no tempo e lembrei-me de que aquela igreja, fundada durante o avivamento wesleyano, já fora um espaço de muita vitalidade espiritual. As placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar — então balcão do bar — pregaram pastores e missionários ilustres. Imaginei aquele grande espaço, hoje cheio de homens vazios, lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a Inglaterra. Perguntei a mim mesmo: "o que levou essa congregação a morrer de forma tão patética?". Nesses meus solilóquios, pensei no Brasil.

Semelhantemente ao avivamento wesleyano, experimentamos um crescimento numérico nas igrejas brasileiras. Há uma efervescência religiosa em nosso país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem muitos CD's. Publicam-se revistas e livros. Comercializam-se bugigangas religiosas nas várias livrarias, que também se multiplicam, interligadas pelo sistema de franquias. Por outro lado, diferentemente do que aconteceu na Inglaterra, o despertamento religioso brasileiro tem uma consistência doutrinária rala, demonstra pouca preocupação ética e um mínimo de impacto social.

Os desdobramentos destas constatações são preocupantes. Se, com toda a firmeza doutrinária, ética e disciplina anglo-saxônica, aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil? Infelizmente sim. As razões que implodiram inúmeras congregações européias obviamente são diferentes. Lá, houve um forte movimento anticlerical motivado pela secularização do Estado e das universidades. A teologia liberal minou o ânimo evangelístico e os processos de institucionalização do que era apenas um movimento jogaram a última pá de cal nos sonhos dos antigos avivalistas ingleses.

Quais os perigos que ameaçam o futuro do movimento evangélico brasileiro? Alguns já se mostram de forma exuberante.

A trivialização do sagrado
Visitar qualquer igreja evangélica no Brasil é oportunidade para perceber uma forte tendência teológica e litúrgica na busca de uma divindade que se molde aos contornos teológicos dessa igreja e que ofereça apoio aos anseios e caprichos pessoais. Faltam temor e espanto diante de Deus. O único medo é o do pastor: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de expansão. A cultura evangélica nacional está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente não é o Deus da exortação de Hebreus 12.28-29: "Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor". O tom de voz exigente e determinante como se fala com Deus hoje deixa a dúvida quanto a quem é o senhor de quem. As experiências que só geram arrepios pelo corpo são relatadas como se Deus fosse apenas um estimulante químico. Certos pastores dizem falar e ouvir a voz de Deus — para serem contraditos pela suas próprias falsas profecias — sem levar em conta que "Deus não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão". Os milagres, aumentados pela manipulação, revelam uma falta de temor. O descaso com o sagrado é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra grande familiaridade, por outro, gera complacência. Complacência e enfado são sinônimos entre si. Se nos acostumarmos com o mistério de Deus e trivializarmos sua presença, acabaremos colocando-o na mesma categoria de nossos encontros mais corriqueiros, daqueles que podem ser adiados ou não, dependendo de nossas conveniências. Acabaremos entediados de Deus.

O esvaziamento dos conteúdos

Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos púlpitos evangélicos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Servem para esconder o despreparo teológico e a falta de esmero ministerial. Manipulam-se os auditórios, eleva-se a temperatura emotiva dos cultos, mas não se cria um enraizamento de princípios. Gera-se um falso júbilo, mas não se fornecem ferramentas para criar convicções espirituais. Hannah Arendet, filósofa do século XX, ao comentar sobre o fato de que Eichmann, nazista, braço direito de Hitler, respondeu com evasivas às interrogações do tribunal de guerra que o julgava sobre seus crimes, afirmou: "Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos".

Qual será o futuro dessa geração que se contenta com um papagaiar contínuo de frases ocas que só prometem prosperidade, vitória sobre demônios e triunfo na vida?

A mistura de meios e fins
Por anos, combateu-se a idéia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa justificava comportamentos aéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio e a paixão por títulos revelam que muitas igrejas já não sabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia.

O livro do Apocalipse mantém a advertência, muitas vezes desapercebida, de que igrejas morrem. As sete igrejas ali mencionadas — inclusive a irrepreensível Filadélfia — acabaram-se. Resumem-se a meros registros históricos. Não podemos achar abrigo na promessa de Mateus 16 — de que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja — para justificar qualquer irresponsabilidade. O livro do Apocalipse adverte: "Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas" (Ap 2.5).

Crescer numericamente não imuniza a igreja de perigos. Pelo contrário, torna-a mais vulnerável. Resta perguntar: Será que agora, famosos e numericamente profusos, não estamos precisando de profetas? Será que o tão propalado avivamento evangélico brasileiro não necessita de uma Reforma? Aprendamos com a história. Um pequeno desvio hoje pode tornar-se um abismo amanhã. Imaginar que podemos condenar nossas igrejas a se tornarem bares de "snooker" é um sonho horrível. Porém, se não fizermos algo, esse pesadelo pode se tornar realidade. Que Deus nos ajude.

Soli Deo Gloria.
Autor: Ricardo Gondim


Fonte: http://www.ultimato.com.br Related Posts with Thumbnails
Antesala
03 de Maio/Segunda Feira

Revejo fotos do meu pai e tento comparar-me ao homem preservado ali. Faço paralelo com fisionomias e miro em seus olhos o tempo em que tinha a idade que estou hoje. Fiquei perecido com ele. O que meu velho pensava sobre satisfação? Quais angústias o assombravam nas madrugadas? O que meditava ao escanhoar o pescoço? Como encarava a morte?

Eu já disse adeus a muitos amigos. Gente que reverenciei se antecipou para entregar o óbulo ao balseiro de Creontes. Pronuncio os meses soletrando cada vogal com vagar. Sei que é inútil tentar atrasar ponteiros. O arrastar das horas sulcou a minha carne para semear a semente do desencanto. O tempo fustigou os meus olhos com as dores do mundo. Mas mesmo assim, contundido como um Jacó manco, aceito o convite para a festa da velhice.

Claudicante e hesitante, pressinto o epílogo que encerrará a trama de minha existência. Ouvi dizer que as dores do velho são pungentes porque nunca machucam aviltosamente. Aprendi que o sono dos velhos é curto; vou ter saudade da adolescência; eu dormia em excesso e como era delicioso acordar na hora do almoço.

Sei que a memória dos idosos se aguça, fica nítida com fatos antigos. Espero que sim. Preciso esquecer a torpeza humana desses últimos anos. Fui pungado de horas e horas quando poderia dedicar-me ao belo. Uma amnésiazinha básica cairá bem para distanciar-me de religiosos nefastos que tentaram infectar a minha alma com vingança. Felicíssimo, recordarei detalhes sobre a amizade que tive com o Roberto, o Titão, o Elmar, o Martagão, o Antônio José,o Junior. Vou rir muito.

Faltam poucos anos – Deus me conceda vida! – para eu desabafar um monte de ideias, doidices, heresias, reflexões e percepções que só os velhinhos têm direito. Os avós são livres para falar asneiras sem temerem o tacão inclemente dos críticos. Protegidos por cãs brancas, eles divagam sobre beleza, ternura e bondade com outra largueza. Anseio pela singeleza dos vovôs que contam histórias, narram casos e fantasiam mundos irreais. Como deve ser bom não precisar conquistar o mundo.

Ultimamente ando assim, nostálgico. A morte súbita do Allison chagou o meu coração. Ainda penso que vou telefonar e indicar o próximo livro que ele deve ler; Como é duro não tê-lo por perto para conversarmos sobre poesia. De repente, a morte deixou de ser um perigo improvável. Ele me esbofeteou e avisou: “Cuide-se, eu também rondo a sua casa”.

Não tenho medo dessa bruxa encapuzada. Não tento enganar a mim mesmo imaginando que sou inalcançável. Não passo de flama de “um círio em uma catedral em ruínas”; mas estou disposto a arder até o fim, celebrando cada instante como se fosse o último.

Soli Deo Gloria
30-03-10


Fonte: http://www.ricardogondim.com.br Related Posts with Thumbnails
O Mundo Mudou e a Igreja Também
17 de Março/Quarta Feira

EM MINHA JUVENTUDE jamais imaginei que o mundo ficaria
do jeito que está. Lembro-me claramente do meu assombro
quando ouvi um CD (os primeiros eram enormes), do meu
espanto com a internet e de como me senti diante das imagens
dos confins do universo, geradas pelo telescópio Hubble.
O futuro chegou assustando prognósticos e profetas.
Assisti ao colapso do comunismo soviético, à ascensão da
teocracia islâmica e ao avanço da pandemia da aids na África. Marx
não acreditaria se lhe contassem que os proletários optaram pelo
consumo e arriaram a bandeira socialista em quase todos os países
onde o comunismo foi implantado. Che Guevara ficaria espantado
em saber que a guerrilha pós-moderna acontece no Iraque,
com características muito mais religiosas que ideológicas. Ele
choraria de tristeza se soubesse que os guerrilheiros colombianos
viraram bandidos comuns.
A história dos últimos cinqüenta anos ganhou velocidade, deu
guinadas mirabolantes, e, muitas vezes, homens e mulheres
agiram como se estivessem num estouro de boiada: todo mundo
se atropelando numa correria sem rumo.

A revolução sexual mudou conceitos de família. Os pais
ganharam novos papéis, os adolescentes passaram a procriar
prematuramente e os idosos perderam relevância com o fortalecimento
da indústria da beleza. As relações com parentes imediatos
tornaram-se distantes.
A popularização do Estatuto dos Direitos Universais do
Homem resgatou a luta pela dignidade dos deficientes físicos,
gerou maior resistência ao racismo e alargou o espaço das mulheres
para reivindicarem igualdade.
Em meus verdes anos como cristão, quando divagava sobre o
futuro, não considerava as mudanças que viriam sobre minha igreja.
Dei meus primeiros passos na fé na Igreja Presbiteriana Central
de Fortaleza. Cumpri ritos de iniciação, no batismo, para me
integrar completamente em minha nova comunidade. Fiz de tudo
para enriquecê-la. Evangelizei, organizei congressos de jovens, dei
aulas na escola dominical. Ali, fiz bons amigos que ainda hoje
permanecem como referenciais para mim.
Nossos cultos seguiam rigorosamente a mesma liturgia, sempre
com reverência. A música vinha de um órgão. Cantávamos com
um hinário e depois ouvíamos o coral. As ofertas, trazidas ao
gazofilácio, precediam o sermão de vinte minutos. Ocasionalmente,
fazia-se um apelo de conversão — com poucos decididos.
O culto terminava com um tríplice amém. Como nossa igreja
não era muito grande, nos conhecíamos intimamente. Gastávamos
horas conversando no terraço. Respirávamos um ambiente
comunitário. Muitas vezes, havia fofocas, mas chorávamos
quando alguém sofria; nos amávamos como uma família.
Quem, naqueles dias, poderia imaginar que as igrejas se
transformariam em mega-empresas, movimentando somas
astronômicas, conspirando pelo poder político e disputando, em
pé de igualdade, a hegemonia da mídia?

Fonte: Introdução do livro O QUE OS EVANGÉLICOS(NÃO) FALAM De Ricardo Gondim Related Posts with Thumbnails
10 Frutos Que Revelam Qualquer Um
28 de Outubro/Quarta Feira

1. Você será conhecido pelos blogs que recomenda.
2. Você será conhecido pelos "power-points" que re-encaminha.
3. Você será conhecido pelas abreviações de seus textos - "q foi q vc fez?"
4. Você será conhecido pelas consultas que faz no Google.
5. Você será conhecido pelos "uploads" que já fez no Youtube.
6. Você será conhecido pelos comentários que já postou em algum blog.
7. Você será conhecido pelo seu grau de credulidade na internet.
8. Você será conhecido pelas páginas registradas em seu Temporary Internet Files.
9. Você será conhecido pelas "correntes" que já participou, tipo: "Para receber a bênção envie este texto para 10 pessoas".
10. Você será conhecido pelos endereços anônimos que criou para encarnar um espírito de porco.

Autor: Ricardo Gondim

Fonte:Ricardo Gondim Related Posts with Thumbnails
Como Levar Sua Igreja ao Topo
Receita para uma igreja bem sucedida
Ricardo Gondim


Gabriel Andrada é jovem, seminarista, recém casado, e cheio de ideais. Evangélico desde o berço, diz que só se converteu de fato com 17 anos em um acampamento de carnaval. Desde a experiência de conversão, que o levou às lágrimas, participa de eventos evangelísticos de sua igreja. Agora se sente vocacionado para ser pastor. Ávido por ser “usado” por Deus, Gabriel matriculou-se em um pequeno instituto bíblico.

Gabriel me conheceu na internet e escreveu pedindo ajuda. Precisa que eu lhe ensine o “caminho das pedras” para começar uma igreja do zero. Pensei, pensei! Sem conhecê-lo, sem saber exatamente aonde o noviço quer chegar, resolvi correr o risco de responder. Disse que para uma igreja ser bem sucedida no Brasil são necessários a combinação de pelo menos dois, de quatro ingredientes.

1) Um pastor carismático. Que tenha traquejo para falar em público com desenvoltura. Que cante afinado, ou que pelo menos comece os hinos no tom certo. Que tenha boa memória para decorar versículos e saiba citá-los sem tomar fôlego. Que seja simpático e bem humorado no trato pessoal.

2) Um bom prédio em uma boa localização. Que a igreja seja em um lugar de fácil acesso. Que tenha bom estacionamento. Que seja confortável, preferivelmente com cadeiras acolchoadas, climatizado com ar condicionado. Que os banheiros limpos não cheirem a creolina.

3) Acesso à mídia. Que a nova igreja tenha programa de rádio ou de televisão. Mas que a programação ressalte as qualidades especiais do líder como o apóstolo escolhido de Deus para os últimos dias. Que repita sem parar que a igreja é especial, diferente de todas as outras. É bom que o locutor fale em línguas estranhas (glossolalia) e profetize sobre detalhes da vida dos crentes. Que crie uma aura de “poder” pentecostal e curiosidade nas pessoas de comparecerem aos cultos.

4) Teologia da Prosperidade. Que o pastor não tenha escrúpulo de prometer milagre à granel. Que a maior parte do culto seja gasto colhendo testemunhos de gente que enricou com as campanhas dos sete dias, com os jejuns da conquista, com as rosas santas, com os cultos dos Gideões, com as maratonas de oração. Quanto mais relatos, melhor.

Ressalto. Gabriel não precisa se valer de todos os pontos para se tornar o novo fenômeno gospel brasileiro. Entretanto, sem o quarto ingrediente, ele não vai a lugar nenhum. Basta que combine qualquer um com o último e seguramente se tornará um forte concorrente nos disputadíssimo mercado gospel.

Entretanto, como vai concorrer com expoentes bem consolidados, terá que trabalhar muito. Talvez precise fazer o programa de rádio ou de televisão na madrugada. No começo, para pagar o horário, terá que fazer merchandise de Ginka Biloba. Gabriel não deve ter receio de oferecer, por uma pequena oferta, lenço ungido, óleo sagrado ou água do rio Jordão. Se necessário, pode até vender cadernos escolares com a capa espiritual; tipo, um rapaz surfando e uma frase ao lado: “Cristo é ‘sur-ficiente’ para mim”.

Não sei se Gabriel entenderá a minha ironia. Caso leve os meus conselhos a sério, logo teremos uma nova igreja de nome bizarro. Contudo, quando estiver nos píncaros da glória, todos saberão que a trajetória de Gabriel Andrada não foi tão espiritual quanto se poderia supor. “Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Shakespeare.

Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim Related Posts with Thumbnails
O Encontro
É um conto maravilhoso de Ricardo Gondim que marcou muito a minha vida quando li, cada vez que leio algo deste autor maravilhoso vejo o quanto Deus tem o honrado com este dom maravilhoso.



O encontro
Ricardo Gondim

Há muito tempo eu seguia por uma estrada deserta. O calor fustigava minha cabeça descoberta. Sedento e com os pés inchados, notei uma silhueta mais à frente. Era um homem de passos lentos. Alcancei-lhe.

- Boa tarde, companheiro. Saudei-lhe timidamente.

Sem responder a saudação, perguntou-me: - Quem é você?

- Um viajante qualquer. Respondi com aspereza. Não queria identificar-me.

- Eu sou Raimundo e não aceito rimas engraçadinhas.

Seus olhos estavam vermelhos, a boca esbranquiçada com saliva seca e as veias do pescoço, latejavam.

-Estou cansado desta estrada, deste caminho, desta jornada. Falei para solidarizar-me com o seu semblante abatido.

Ele me olhou pela primeira vez. Mirou-me com um pai, pronto para aconselhar o filho.

- Eu também estou mal, muito mal. Sinto-me exausto. Semelhante ao homem que acabou de quebrar um caminhão de pedras, depois olhou para o lado e descobriu que mais dois caminhões esperavam por ele. Ando sem ânimo com a paisagem. Prefiro andar sem ser importunado. Não aguento cobranças. Há anos não quero ninguém ao meu redor.

Narrei-lhe algumas experiências nos anos que gastei na estrada. Confessei minha necessidade de encontrar um amigo que fosse parceiro por aquela trilha que serpenteava montanhas e desaparecia no horizonte.

Raimundo me disse que eu só o encontrei porque ele envelhecera; não conseguia manter o ritmo dos primeiros quilômetros.

- Siga na sua velocidade, não espere por mim. Seu conselho soou como despedida.

Antes que nos apartássemos na bifurcação que se abriu no vale, falei:

- Estou com um nó na garganta, uma vontade de chorar entalada que nunca se transforma em choro, mas que me incomoda e abate.

Esperava que Raimundo permanecesse calado, mas o franzino viajante retrucou:

- Não queira recomeçar, não tente antecipar o que vem pela frente, não sinta falta de diálogo. Caminhe sozinho, faça do suor sua única companhia.

Parou, mirou o chão quente e sussurrou:

- Depois de tantos anos nesta senda, minha vontade é não fazer nada, não conversar com ninguém, não saber de coisa nenhuma. Sigo sem destino e sem rumo. Quer saber mais? Vou forçado. Sou peregrino por obrigação. Vejo a vida como sina que tenho que cumprir.

Chegou a forquilha que nos apartou. Raimundo apontou o dedo para a direita. Com autoridade, indicou o lado que eu deveria optar e arrematou: – É mais seguro.

Acenei-lhe um adeus sem palavras.

De longe, Raimundo gritou: - Boa sorte, viajante. Desculpe, estou num dia péssimo.

Soli Deo Gloria

Fonte:O Encontro Related Posts with Thumbnails
Achei e se texto no site do Ricardo Gondin e não é que tem muitos destes cavaleiros no nosso tempo ainda.

A Ordem dos Cavaleiros Querubínicos.
Ricardo Gondim.

Em 1428, setenta e três homens se reuniram na rotunda da Catedral de Veneza para formarem a Ordem dos Cavaleiros Querubínicos. A “Ordem”, como depois ficou conhecida, era composta pela elite intelectual e sacerdotal de Veneza; um grupo que, há tempos, conspirava contra a igreja. A identidade dos membros permanece anônima porque todos usaram nomes fictícios e só se reuniam cobertos por um capuz grosso com três orifícios, para os olhos e nariz - nunca se viu o movimento dos lábios de ninguém.

A primeira reunião foi convocada por um manifesto secreto e por um indivíduo com o pseudônimo de Mestre Adon-Hiram. Ela aconteceu às 2.30 da madrugada do dia 27 de abril de 1428 e todos os setenta e três membros assinaram o termo de fundação, pinicando o polegar direito com uma finíssima agulha e molhando a pena no próprio sangue.

Em 2005, o jesuíta Teodoro Paschoal encontrou uma passagem secreta na rotunda da catedral e teve acesso aos documentos, cartas, atas e tratados da Ordem dos Cavaleiros Querubínicos. A alta cúria do Vaticano analisou os documentos através da Congregação para a Doutrina da Fé e considerou o material tão pernicioso para a fé cristã que mantém o acervo inacessível, na lista do Index, ou Index Librorum Prohibitorum.

Certa vez, numa entrevista ao colégio de cardeais italianos, o atual Papa mencionou a Ordem dos Cavaleiros Querubínicos como a mais poderosa força intelectual de oposição à fé da Idade Média.

Devido a esta menção, alguns estudiosos começaram uma vasta pesquisa sobre a "Ordem". Sem que se saiba como, Francesco Corleone, doutor em história pela Universidade de Roma, conseguiu cópias, e publicou, um documento redigido pela "Ordem" em 1445.

Era um esboço do Novo Testamento re-escrito pelos Cavaleiros que visava anular os ensinos de Cristo. A publicação de Corleone revela um pedaço da versão da "Ordem" para o Sermão da Montanha.

Aparentemente, eles queriam minar os conteúdos da pregação de Jesus, sugerindo que o texto que se difundiu como “palavras de Cristo” não é autêntico, mas uma versão maquiada pela igreja oficial. A "Ordem" buscava impressionar as pessoas para que percebessem Jesus como um judeu bem mais esperto e sagaz do que a igreja ensinou.

Segundo Corleone, o documento vem assinado em sangue por setenta e três homens que se identificaram por apelidos estranhos, como: Azrael, Aralim, Clifote, Flegetão e Asmodeu.

Reproduzo abaixo alguns trechos da versão da Ordem dos Cavaleiros Querubínicos para o Sermão da Montanha - considerado a Carta Magna de Jesus de Nazaré:

Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Reuniu uma pequena multidão de discípulos e ele começou a ensiná-los dizendo:

Bem-aventurados os sagazes, pois deles é o Reino dos Homens. E acrescentou, não anelem pelo Reino dos céus, a vida é aqui e agora e quem não souber se comportar como uma serpente morre mais cedo.

Bem-aventurados os que não desperdiçam lágrimas. Só os fracos choram; estes acabam fragilizados; quem souber suplantar os outros na corrida da vida será um autêntico vencedor.

Bem-aventurados os valentes, pois eles receberão a terra por herança. Não sou eu quem lhes afirmo esta verdade, ela está patente aos olhos de todos; quem se submete como um vassalo jamais herdará coisa alguma.

Bem-aventurados os que desdenham da justiça. Vivemos em um mundo em que a balança enganosa sempre prevalecerá e cada um deve proteger o que é seu e deixar que os propósitos ocultos de Deus se cumpram; tudo está escrito.

Bem aventurados os que não abrem mão de seus direitos. Aqueles que usam de misericórdia alimentam o inimigo que lhes matará no fio da espada.

Bem-aventurados os cínicos que escondem bem os seus defeitos; só eles sobrevivem na terra. Aqueles que reconhecem seus pecados, os puros de coração, viverão nos cantos do eirado.

Bem-aventurados os que pegam em armas para se defenderem. Quem não se antecipa aos seus inimigos e os mata, morrerá antes deles. Não acreditem na possibilidade da paz, ela nunca chegará; portanto guardem o direito que o Senhor lhes deu de preservarem a vida de vocês.

Bem-aventurados os que perseguem, eles têm o poder. Quem é perseguido padecerá em masmorras, e terá que responder ao ímpio: ‘Sim, Senhor’. O forte só terá que dizer, ‘Sim, Senhor’, a Deus que está no céu, que é o Todo-Poderoso. Portanto, nunca queiram estar na posição do perseguido, façam tudo para estar por cima.

Bem-aventurado o príncipe, não o profeta. Quando ouvirem falar que profetas anunciam o que vocês não gostam, tomem pedras e eliminem quem estorva a felicidade de vocês. Lembrem-se de que os reis governam até ficarem velhos e não foram poucos os profetas que morreram cedo. Deus é por vocês; ninguém pode tirar o direito dos seus filhos reinarem.

A Ordem dos Cavaleiros Querubínicos foi extinta por volta de 1899 e nunca mais se ouviu falar numa reunião deles. A sua mensagem, porém, continua sendo pregada pelos púlpitos do século XXI. Infelizmente.

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"A Dor" Um conto maravilhoso

A dor.
Ricardo Gondim.

Maria acordou com um urro do marido. O homem gritava tão alto que toda vizinhança ouviu. Seus gritos eram agoniados. A mulher se assombrou ainda mais quando o marido não conseguiu articular nenhuma frase, apenas se contorcendo.

Maria se voltou e viu que a barriga do marido estava redonda e enorme. Agora ela gritou espantada porque tocou no ventre do marido e o sentiu pulsando. Ao encostar o ouvido, percebeu que dois corações batiam dentro dele.

Nesse instante, Maria ouviu rumores no jardim. Correu até a janela e, pelas frestas, se deparou com uma pequena multidão aglomerada. Indignada, escancarou as duas bandas da janela, indagando o que queriam. Uma senhora idosa falou em nome do grupo que gostariam de ajudar. Sendo amigos, não podiam ficar indiferentes.

Mais calma, Maria desatou a chorar. A barriga do homem continuava enorme, prestes a explodir. Tudo acontecera tão de repente e ela não sabia o que fazer. Fez-se um silêncio constrangedor. O choro do homem ressoou mais alto pelo jardim. Uma velha aconselhou que chamassem o Prior Simeão. Ele já havia curado um caso parecido.

Quando o Prior Simeão entrou no quarto, se espantou com a dor daquele pobre homem. Assim que o auscultou, sentenciou que realmente estava grávido e nada se poderia fazer. Recomendou, então, que esperassem até o anoitecer e abruptamente saiu.

O marido continuou chorando e gemendo o dia inteiro. À noite, aos poucos, pegou no sono. Assim que o dia clareou, Maria correu até a cama. O marido sequer abrira os olhos, a barriga, porém, voltara ao normal.

A mesma multidão já havia se juntado ao redor da casa para saber as notícias. A mulher anunciou que o marido estava bem. O Prior Simeão tinha razão: Um homem só precisa de uma noite para parir os seus sonhos.

Soli Deo Gloria.

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