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Franguinho na panela
21 de Outubro/Quinta Feira

Já tive o privilégio de assistir Zé Carreiro e Carreirinho, Inezita Barroso, Ely Camargo (que por sinal é parente), Irmãs Galvão, entre outros. Mas o carisma e a singeleza de Lourenço e Lourival não havia ainda presenciado. Foi um privilégio enorme para esse simples mortal que ama a beleza de ser Brasil interior.

Deixo para você a letra de um dos sucessos dessa dupla: Franguinho na Panela. É de emocionar!


Franguinho na panela

No recanto onde moro é uma linda passarela
O carijó canta cedo, bem pertinho da janela
Eu levanto quando bate o sininho da capela
E lá vou eu pro roçado, tenho Deus de sentinela
Têm dia que meu almoço, é um pão com mortadela
Mais lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela

Eu tenho um burrinho preto bão de arado e bão de sela
Pro leitinho das crianças, a vaquinha Cinderela
Galinha tá no terreiro papagaio tagarela
Eu ando de qualquer jeito, de butina ou de chinela
Se na roça a fome aperta, vou apertando a fivela
Mais lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela

Quando eu fico sem serviço a tristeza me atropela
Eu pego um bico pra fora e deixo cedo a corrutela
Eu levo meu viradinho é um fundinho de tigela
É só farinha com ovo, da gema bem amarela
É esse o meu almoço, que desce seco na goela
Mais lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela

Minha mulher é um doce e diz que sou o doce dela
Ela faz tudo pra mim, tudo o que eu faço é pra ela
Não vestimo lã nem linho é no algodão e na flanela
É assim a nossa vida, que levamos na cautela
Se eu morrer Deus dá um jeito, mais a vida é muito bela
Não vai faltar no ranchinho pra mulher e os filhinhos
Um franguinho na panela.

Postado por Carlinhos Veiga


Fonte:http://carlinhosveiga.blogspot.com/
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Uma igreja sem portas e janelas
14 de Outubro/Quinta Feira

Foto tirada por Carlinhos Veiga em novembro de 2006



Numa das minhas andanças por essas terras fui convidado a participar de um Fórum Popular de Teologia na cidade de Olinda, Pernambuco, em novembro de 2006. Várias entidades apoiavam essa iniciativa da Igreja Batista de Bultrins, que tinha por tema “Igreja, Comunidade e Violência”. O assunto era muito pertinente para uma igreja plantada em meio a uma região de muita pobreza e consequentemente de enormes conflitos sociais.


Chegando ao local percebi que não era uma atividade meramente preparada pela igreja para a igreja. Era um evento que envolvia toda a comunidade ao redor. Estavam ali representadas várias sociedades civis e movimentos populares. Uma quermesse se estendia rua afora, defronte ao templo, como um tapete vermelho de boas vindas aos participantes que vinham de todo o Recife e de vários estados do país.


Fui andando no meio daquele povo sorridente e carinhoso buscando alcançar o local das reuniões quando me deparei frente a frente com o templo: um prédio simples, rude, inacabado, sem portas e janelas. Isso mesmo: não havia portas nem janelas, apenas vãos abertos, orifícios vazios, vazados, como o sorriso banguela de muitos daqueles transeuntes. Pensei comigo: como isto é possível? Uma igreja aberta 24 horas, que não fecha suas portas porque não tem portas para fechar, que não tranca suas janelas porque não tem janelas. Uma igreja sem cadeados e chaves, sem trancas e tramelas. Quis saber um pouco mais sobre aquilo.


Paulo César era um jovem que na década de 90 sonhou, juntamente com alguns companheiros e irmãos de fé, em levar o evangelho de Cristo ao povo humilde e sofrido da Vila Esperança, periferia de Olinda. Inicialmente faziam apenas reuniões evangelísticas, mas aos poucos outras necessidades surgiram. O povo precisava de tudo. Muitos estavam famintos, outros tantos doentes, outros vivendo pesados dilemas e dramas psicológicos. Era preciso fazer algo mais do que estudos bíblicos e pregações. Apesar das limitações, Paulo e seus companheiros seguiram os passos de Jesus e se envolveram, movidos por compaixão, com os moradores da vila Esperança.


Com os anos uma igreja Batista se formou ali. Adquiriram um terreno com o apoio da população local e começaram a construir o templo. Lançaram a fundação, levantaram as paredes e colocaram o telhado. Faltavam apenas as portas e janelas. Passaram a se reunir ali mesmo com a construção não concluída. Foi quando aconteceu algo que mudou radicalmente os rumos da Igreja Batista de Bultrins. Incomodados com a desafiadora mensagem do evangelho, seis irmãos se apresentaram à liderança como candidatos ao ministério – queriam estudar teologia. Mas a igreja não dispunha de recursos para este envio. Foi aí que tiveram de tomar a difícil decisão: ou enviavam os seis para o seminário ou colocavam as portas e janelas no prédio. A Assembléia optou pelo mais sensato, embora muitas vezes não seja entendido pela maioria de nós como o mais lógico: enviaram os vocacionados. Com esta atitude, sem perceberem, estavam delineando, esculpindo a visão ministerial daquela igreja. Ao privilegiarem pessoas ao invés de coisas definiam uma cultura que caracterizaria a comunidade.


Anos se passaram e as portas e janelas nunca foram colocadas. Um novo conceito de igreja, e não só de templo, foi definido ali. Terminaram as instalações hidráulicas e elétricas, compraram cadeiras, instrumentos de som, mas nada de portas e janelas. Uma relação diferenciada foi estabelecida entre a igreja e os moradores da região. Com as portas abertas 24 horas, moradores de rua passaram a dormir no templo. Famílias de sem-teto agora tinham um canto para se abrigar do frio e das chuvas. Passaram a servir o sopão aos mais carentes nas noites de segunda-feira. Os garis que cuidavam da limpeza da região agora tinham uma sombra boa para o almoço e a rápida sesta. E assim a comunidade ao redor se abriu para a igreja porque a igreja se abriu, ou melhor, não se fechou, para a comunidade.


Tive o privilégio de subir o morro da Vila Esperança com o Pastor Paulo César, de serpentear por entre aqueles becos que revelam tanta miséria, pobreza e violência. Por onde passávamos o povo o saudava com sorrisos e abraços. As crianças corriam na sua direção quando o viam e gritavam carinhosamente “irmão Paulo, irmão Paulo!”. Dizem até que num determinado período muito conturbado e violento ali o único que tinha carta branca para entrar e sair a qualquer hora do dia e da noite da Vila Esperança era o irmão Paulo. Tudo por causa de uma igreja que decidiu não ter portas nem janelas. Que optou por não fechar-se em si mesma, mas abrir-se para aqueles que estão ao redor.


Não pretendo ser simplista, muito menos romântico. A Igreja Batista de Bultrins paga um preço por essa atitude, e não é barato. Vez por outra precisa administrar conflitos internos e externos por não ter portas nem janelas. Mas sua atitude marcou a vida de toda uma comunidade que agora compreende verdadeiramente as palavras de Jesus: O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (João 6.37).
Postado por autor Carlinhos Veiga às 12:01 PM

Fonte: http://carlinhosveiga.blogspot.com/

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O poeta se foi, mas não a poesia
09 de Outubro/Sábado

Nesta semana, tive uma triste incumbência: a de sepultar um poeta! De uma hora para a outra, a saúde lhe faltou, e, depois de muita luta, partiu, levando consigo um pedaço de muita gente.

Eu não convivi muito com ele. Nossos encontros foram quase sempre na escadaria da igreja, enquanto subíamos rumo às classes de escola dominical. Sempre ao seu lado, havia gente interessada nos causos que fugiam completamente do trivial: artes cênicas, poesias, discos voadores, viagens por esse mundo de meu Deus e coisas tais. Outros, por causa de seu jeito um tanto estranho, o ignoravam.

O poeta era considerado muito polêmico e um inconformado com o sistema. Brigava insistentemente pelo mundo ideal, empunhando suas armas: as palavras e as artes. Por isso, era tido por estranho e esquisito… Alguns chegavam a rir-se dele pelos cantos, com a mão sobre a boca. Sobre isso, lembro-me das palavras de Bob Marley: “Vocês riem de mim, porque sou diferente; eu rio de vocês, porque são todos iguais…” Acho que, por dentro, o poeta dava gargalhadas de todos nós – os pseudo-normais.

Enquanto a cerimônia de despedida acontecia e as palavras de testemunho iam sendo ditas, lembrei-me de G. K. Chesterton: “Geralmente se diz que os poetas não são confiáveis do ponto de vista psicológico, e geralmente faz-se uma vaga associação entre cingir a cabeça com uma coroa de louros e fazer loucuras [...] A imaginação não gera insanidade. O que gera insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim”. Para Chesterton, os homens não enlouquecem sonhando; por isso, os críticos são muito mais loucos que os poetas. “A poesia mantém a sanidade, porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito. O resultado é a exaustão mental…”

Viver como um poeta é viver sob outra ótica, observando a vida de outra maneira, diferente da lógica que nos escraviza e adoece. Poetizar é descobrir rasgos de luz e virtude nos entremeios, por entre as cascas rotas e exauridas, marcadas pela dura vida. Poetizar é sonhar e deixar-se embalar pelos sonhos que apontam para uma outra realidade, tão real quanto, mas mais prazerosa e deliciosa. É não desistir de viver e de extrair beleza de onde parecia nada mais oferecer. Por isto, o poeta é tido por louco: ele vê o que o calculista não consegue enxergar; ele absorve imagens, cheiros e sons daquilo que a mente lógica não consegue abstrair além da utilidade prática. Nem tudo o que é belo serve para algo; talvez sua vocação seja apenas inspirar poesias e belezas no coração tomado pela sensibilidade.

Chesterton acertou em cheio quando disse: “O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça”. Talvez aí esteja a explicação para muito teólogo que perde a sanidade e a humanidade pelo estilhaçar de uma mente que queira tornar lógica a poesia de Deus.

O poeta se foi, voando para abraçar aos céus… para ser abraçado pelo Pai. Sua poesia ficou, como sementes para nos instigar e nos inspirar a uma vida mais bela. Inspirações e pirações de quem amou a vida e amou a Deus.


Fonte: http://ultimato.com.br

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Ser pai
23 de Setembro/Quinta Feira

Coelho Neto escreveu que “ser mãe é padecer no paraíso”. Uma frase poética que mostra dois lados opostos de uma maravilhosa lida: padecimento e satisfação. Mas, e ser pai?

Ser pai é deter-se diante do mistério da vida e ousar participar dele. É experimentar com sua esposa esse processo divino de gerar, de fertilizar, de semear. Depois, regar, cuidar, dar atenção e sonhar. É lançar a semente e colher, nove meses depois, o fruto desse amor, fruto inquietantemente aguardado.

Ser pai é aprender o desapego de si mesmo. É aprender a domar o selvagem egoísmo e o “eucentrismo” que urra dentro de nós. É deixar-se doer de amor por aquela pequenina criatura, parte de você, que fragilmente espera por seu cuidado e por sua atenção. É morrer para seus “purismos” mais impuros, para renascer genitor.

Ser pai é aprender que a cumplicidade mãe e filho é algo inestimável e por isso saber colocar-se, principalmente nos primeiros anos do pequenino bebê, no seu devido lugar. Nesse tempo o pai é especialmente protetor e contemplativo da relação intensa entre os dois: o que esteve dentro, no útero, e a que o acolheu, no útero. O pai, nessa época, é alguém como que de fora. Faz parte da relação, mas não partilha das primeiras revelações íntimas pós-uterinas. À medida que os dias avançam, integra-se de maneira igualmente intensa e amorosa na relação filial. Assim, ser pai é saber cuidar sem ser cuidado, descobrir o ritmo do afastar-se e do aproximar-se, isso tudo sem ferir a si mesmo e ao outro, como que tomado pelo desvanecimento da exclusão e da inferioridade. Ser pai é não exigir para si o protagonismo da história da vida.

Ser pai é ver os filhos crescendo ao redor e tê-los como amigos. Todavia, ao mesmo tempo, ser pai é não negar-lhes a bênção do ensino e da orientação, por meio de conversas, beijos, abraços, “varas” e repreensões. Não repreender com dureza e ternura é o mesmo que deixar o filho à solta, à míngua, sem parâmetros que o nortearão para toda a vida. E o pior, sem essa expressão de amor jamais a criança conhecerá profundamente o Deus que é todo amor e todo justiça. O pai que se omite na criação se omite no amor e no cuidado. O dinheiro pouco pode realizar nessa área do relacionamento.

Ser pai é ver o tempo passar velozmente, testemunhar os meninos se tornando moços tão belos, tão rapidamente e trazer consigo aquele sentimento de incompletude: “eu poderia ter feito mais por eles…” Ser pai é ser assim: totalmente felicidade, totalmente dúvida. Ser pai é indagar-se no paraíso.

Autor: Carlinhos Veiga


Fonte: http://ultimato.com.br/

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O Senhor é meu Boiadeiro e Nada me Faltará
Boi ou Ovelha? Tanto Faz!
08 de Outubro/Quinta Feira

Algum tempo atrás, pensando, me descobri mais caipira do que entendia ser. Analisando as maiores emoções que tive, marcas profundas na minha existência, descobri algumas coisas interessantes sobre eu mesmo. Minha maior emoção, confesso, no foi ver o mar pela primeira vez. Mas, remexendo o interior da minha alma, lembro-me, com oito anos de idade, mudo, calado, respiro ofegante, nas barrancas da pequena cidade de Bandeirantes, contemplando pela primeira vez o rio Araguaia. Como diriam os meninos daquela região o "bitelo Araguaia moleque". Assim que me vejo, mais rio que mar, mais sitio que shopping, mais viola de dez cordas que guitarra elétrica.

No final da minha adolescência comecei a andar com um primo. Ele era crente. E nessa convivência conheci a Jesus através do testemunho e vida de um garoto pouco mais novo que eu. Aos dezoito j era um convertido, membro de igreja evangélica e mais, um ser transformado pelo poder do Evangelho. Foi quando me deparei com algumas figuras bíblicas que at então no faziam parte do meu pequeno mundo.

Lendo a Bíblia, descobri o Salmo 23 que dizia: "O Senhor meu pastor e nada me faltar". Mas, eu nunca havia visto uma ovelha antes! Faziam parte do meu contexto boi, leitoa, galo, galinha d,Angola, garnisé, mas ovelha... Conhecia apenas de fotografias e filmes na TV. E a Palavra de Deus agora me comparava a uma ovelha. Se a Bíblia dissesse, "o Senhor o meu boiadeiro e nada me faltar", certamente eu teria maior facilidade para entender. Mas ela estava dizendo, que o Senhor o meu pastor, no boiadeiro. Conclusão isto que eu precisava saber mais sobre a ovelha, sobre a forma como ela se relacionava com o seu pastor, e vice-versa. Passei a ler outros textos da Palavra de Deus, a buscar ajuda em comentaristas bíblicos. E sabe o que eu descobri? Que no fundo o que importava era que Deus era o meu Pai, independentemente do bicho que eu fosse, boi ou ovelha, e do contexto que eu vivesse. Que alivio! A f em Jesus poderia ser aplicada na minha vida, ali mesmo onde eu vivia. Ser ovelha ou boi, para Deus pouco importava. Se criado nos pastos de Israel, da Sua, ou do cerrado, seu cuidado por mim era o mesmo. Que estando sob sua orientação poderia trilhar confiantemente as veredas da justiça e o vale da sombra da morte, pois Ele no me desampararia. Ele cuida de mim.

E assim tem sido nesses quase 20 anos de vida crista. A cada dia o Senhor me surpreende com seu cuidado e amor. Ele me fez como fez, me converteu da forma como quis e agora me quer, como sou, inteiramente para Si. Boi ou ovelha? Tanto faz! Desde que seja para sua gloria.
Autor: Carlinhos Veiga

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